O Mazda que ninguém lembra quando fala de motor rotativo
Falar de Eunos Cosmo hoje é praticamente falar sozinho. Todo mundo conhece o RX-7, todo mundo babou no RX-8, mas o Cosmo? Esse ficou no limbo. E olha que estamos falando do único Mazda de produção que saiu da fábrica com um motor Wankel de três rotores. Não é pouca coisa, né?
Nos anos 90, o Japão estava nadando em dinheiro. A bolha econômica ainda não tinha estourado, e as montadoras faziam o que bem entendiam. Foi nessa época de fartura que nasceram os ícones: Skyline GT-R R32, Supra A80, NSX, 3000GT, RX-7 FD. Carros que hoje valem mais do que custavam novos, coisa de maluco.
E foi justamente nesse contexto que a Mazda decidiu fazer algo completamente fora da curva: um cupê de luxo com motor rotativo, recheado de tecnologia e posicionado acima do próprio RX-7. O Eunos Cosmo nasceu em 1990 para ser o topo de linha absoluto da marca. E conseguiu, mas quase ninguém ficou sabendo.
A linhagem Cosmo: de ícone dos anos 60 a esquecido dos anos 90
O nome Cosmo não era novidade. O Mazda Cosmo Sport original, lançado em 1967, foi o primeiro carro de produção do mundo equipado com motor Wankel. Um cupê belíssimo, baixo, com faróis escamoteáveis e apenas 982 cm³ de cilindrada. Mas que cilindrada: 130 cv em um carro que pesava menos de uma tonelada. Era a prova viva de que o Japão não estava ali só para fazer copinhos de carros europeus.
Foram fabricadas pouco mais de 1.500 unidades entre 1967 e 1972. Hoje, cada exemplar vale uma fortuna. É um dos carros japoneses mais desejados por colecionadores, e com razão. Ele abriu caminho para tudo que viria depois.
As gerações seguintes do Cosmo — a CD (1975-1981) e a HB (1981-1989) — continuaram oferecendo motor Wankel, mas perderam aquele charme de carro especial. Viraram cupês grandes, pesados, alguns até com versões sedã de quatro portas. Tinham até opção de motor convencional a pistão para quem quisesse economizar combustível. Ou seja, viraram carros normais com nome bonito.
Mas em 1990, a Mazda resolveu resgatar o espírito original. E foi com tudo.

Cabine premium com tecnologia avançada para os anos 90
Eunos Cosmo: o cupê que nasceu para ser diferente
O Eunos Cosmo de quarta geração foi lançado sob a marca Eunos, uma sub-marca de luxo criada pela Mazda especificamente para o mercado japonês. Era a mesma estratégia que a Toyota usou com a Lexus e a Nissan com a Infiniti, só que voltada para dentro de casa.
A plataforma era exclusiva. Nada de aproveitar chassi do RX-7 ou de qualquer outro modelo. O Cosmo media 4.815 mm de comprimento, 1.795 mm de largura e tinha 2.750 mm de entre-eixos. Para comparação, um BMW Série 6 da época tinha dimensões parecidas. Era um carro grande, baixo, largo, com visual horizontal e agressivo.
O peso variava entre 1.490 kg e 1.640 kg, dependendo do nível de equipamentos. Não era leve, mas também não era nenhum paquiderme considerando o tanto de tecnologia embarcada.
O design exterior era típico dos anos 90: linhas retas, faróis largos e baixos, lanternas que percorriam toda a traseira. Capô longo, para-brisa inclinado, teto baixo. Não era bonito no sentido clássico, mas tinha presença. Parecia caro, e era.
Interior de primeira classe com veludo e couro
Por dentro, o Cosmo era outro nível. O painel seguia o tema horizontal, minimalista para os padrões da época. O cluster de instrumentos ficava embutido em uma cavidade na parte superior, com mostradores analógicos e um computador de bordo digital — coisa rara em 1990.
Os bancos dianteiros eram verdadeiras poltronas, com apoio lateral generoso, ajustes elétricos e revestimento que podia ser todo em couro ou com a parte central em veludo. Sim, veludo. Era luxo à japonesa, meio exagerado, meio kitsch, mas funcional.
Acomodava quatro pessoas, mas o foco eram os ocupantes da frente. Os bancos traseiros eram mais para emergência ou para levar crianças. Nada muito diferente do que se vê em cupês grandes até hoje.

O coração da fera: motor Wankel de três rotores
Agora vamos ao que interessa. O motor rotativo do Eunos Cosmo era único. Literalmente. Nenhum outro carro de produção da Mazda usou um Wankel de três rotores. Nem antes, nem depois.
Eram oferecidas duas versões do propulsor, ambas com configuração 3-rotor:
- 13B-RE: aspirado, 2.0 litros (na classificação rotativa), 230 cv a 6.500 rpm
- 20B-REW: biturbo sequencial, 2.0 litros, 280 cv a 6.500 rpm (limitados eletronicamente, como era padrão no Japão)
A versão biturbo, na prática, entregava bem mais do que os 280 cv declarados. Estimativas não oficiais falam em algo perto de 300 cv reais, o que fazia sentido considerando o desempenho do carro.
O sistema de turbos sequenciais era engenhoso: um turbo menor entrava em ação primeiro, garantindo resposta em baixas rotações, e o segundo turbo, maior, assumia o comando nas altas. O resultado era um motor elástico, com boa resposta em qualquer faixa de giro, mas que realmente acordava depois dos 4.000 rpm.
O ronco era inconfundível. Aquele som anasalado, agudo, quase de turbina de avião, típico dos Wankel. Quem já ouviu um RX-7 FD em alta rotação sabe do que estou falando. Agora imagina isso com um rotor a mais. É de arrepiar.
Desempenho: rápido, mas pesado
Com a versão biturbo e câmbio automático de quatro marchas (sim, automático), o Cosmo ia de 0 a 100 km/h em cerca de 6,5 segundos. Não era foguete, mas era respeitável para um cupê de luxo de 1,6 tonelada.
A velocidade máxima era limitada eletronicamente a 180 km/h, seguindo o acordo dos fabricantes japoneses da época. Sem o limitador, o carro facilmente passaria dos 240 km/h.
O câmbio manual de cinco marchas era oferecido apenas na versão aspirada, o que é uma pena. A maioria dos Cosmos vendidos tinha câmbio automático, o que fazia sentido considerando o público-alvo: executivos japoneses que queriam conforto e exclusividade, não necessariamente performance pura.
Tecnologia de outro mundo (para 1990)
O Eunos Cosmo foi um dos carros mais tecnológicos de sua época. A lista de equipamentos incluía:
- Sistema de navegação GPS integrado ao painel — um dos primeiros do mundo
- Tela CRT colorida touchscreen no console central
- Controle de tração e estabilidade
- Suspensão adaptativa eletronicamente
- Faróis de xenônio (raríssimos em 1990)
- Sistema de som premium com CD player
- Ar-condicionado digital bizona
- Vidros, travas e retrovisores elétricos
- Bancos com memória de posição
O sistema de navegação GPS merece destaque. Em 1990, GPS em carro era coisa de ficção científica. A Mazda conseguiu integrar um sistema funcional, com mapas digitalizados do Japão, em uma tela touchscreen colorida. Era lento, limitado, mas funcionava. E impressionava.
A tela também controlava o sistema de áudio, o ar-condicionado e outras funções do carro. Era o que hoje chamamos de central multimídia, só que 25 anos antes de virar padrão.
Por que o Eunos Cosmo fracassou?
Com tanta tecnologia, motor exclusivo e posicionamento premium, por que o Cosmo não virou ícone como o RX-7?
Primeiro: preço. O Cosmo custava o equivalente a US$ 60.000 na época, mais caro que um Porsche 928 ou um BMW 850i. Era muito dinheiro, mesmo para o Japão em plena bolha econômica.
Segundo: timing. O carro foi lançado em 1990, e a bolha econômica japonesa estourou em 1991. De repente, ninguém mais queria gastar fortunas em carros de luxo. As vendas despencaram.
Terceiro: consumo. Motor Wankel nunca foi exemplo de eficiência. O Cosmo bebia combustível como se não houvesse amanhã. Na cidade, fazia facilmente menos de 6 km/l. E isso com gasolina premium. Era insustentável.
Quarto: manutenção. Motor rotativo exige cuidados específicos. Troca de óleo frequente, atenção ao sistema de arrefecimento, reconstrução periódica dos selos de ápice. Não é carro para quem quer sossego.
Foram fabricadas apenas 8.875 unidades entre 1990 e 1995. É um carro raríssimo, mesmo no Japão.
O legado esquecido do motor de três rotores
O Eunos Cosmo foi o único carro de produção da Mazda com motor Wankel de três rotores. Houve protótipos, houve carros de corrida, mas de produção, só ele.
A Mazda nunca mais tentou. O motor 20B-REW morreu com o Cosmo. É uma pena, porque o conceito era fascinante: mais rotores, mais cilindrada, mais potência, tudo mantendo o tamanho compacto e o peso baixo do Wankel.
Hoje, encontrar um Eunos Cosmo em bom estado é quase impossível. A maioria foi sucateada no Japão, vítima de impostos abusivos sobre carros antigos e custos de manutenção proibitivos.
Alguns exemplares foram exportados para fora do Japão, principalmente para a Nova Zelândia e Austrália. Nos EUA e Europa, são raríssimos. No Brasil, provavelmente não existe nenhum.
Comparação inevitável: Cosmo vs. RX-7 FD
É impossível falar do Eunos Cosmo sem compará-lo ao RX-7 FD, lançado em 1992. Ambos usavam motor Wankel, ambos eram cupês, ambos eram caros. Mas eram carros completamente diferentes.
O RX-7 era um esportivo puro. Leve (1.280 kg), ágil, com distribuição de peso 50:50, suspensão afiada e foco total em performance. Era para quem queria dirigir rápido e sentir cada curva.
O Cosmo era um gran turismo. Pesado, confortável, luxuoso, tecnológico. Era para quem queria viajar longas distâncias com conforto e estilo, sem abrir mão do ronco rotativo.
O RX-7 tinha motor 13B biturbo de dois rotores, 255-280 cv, câmbio manual de cinco marchas. O Cosmo tinha motor 20B de três rotores, 280 cv, câmbio automático de quatro marchas (na maioria das unidades).
O RX-7 virou lenda. O Cosmo virou nota de rodapé. Mas isso não significa que o Cosmo fosse inferior. Era apenas diferente. E talvez tenha nascido na hora errada.
Vale a pena importar um Eunos Cosmo hoje?
Se você está pensando em trazer um Eunos Cosmo para o Brasil, precisa saber de algumas coisas.
Primeiro: é caro. Mesmo sendo raro e esquecido, um Cosmo em bom estado custa entre US$ 15.000 e US$ 30.000 no Japão. Some frete, impostos, despachante, e você facilmente passa dos R$ 200.000. É dinheiro para comprar um carro novo e com garantia.
Segundo: peças são raríssimas. Motor Wankel de três rotores? Esquece. Você vai depender de importação do Japão ou de adaptações criativas. E não é barato.
Terceiro: consumo e manutenção são proibitivos. Prepare-se para gastar com gasolina premium e revisões frequentes. Motor rotativo não perdoa descuido.
Quarto: não espere revenda fácil. O Cosmo não tem o apelo do RX-7. Você vai ter dificuldade para vender, e provavelmente vai perder dinheiro.
Mas se você é apaixonado por Wankel, se quer algo exclusivo, se não liga para consumo e manutenção, o Eunos Cosmo é uma opção fascinante. É um pedaço raro da história automotiva japonesa, e merece reconhecimento.
Conclusão: o cupê rotativo que o tempo esqueceu
O Eunos Cosmo foi um experimento ousado da Mazda. Um cupê de luxo com motor Wankel de três rotores, recheado de tecnologia e posicionado acima do lendário RX-7. Nasceu no auge da bolha econômica japonesa e morreu quando ela estourou.
Foram apenas 8.875 unidades fabricadas em cinco anos. É um carro raríssimo, caro de manter, difícil de encontrar e praticamente desconhecido fora do Japão. Mas é também o único Mazda de produção com motor de três rotores, e isso por si só já garante seu lugar na história.
Enquanto o RX-7 virou ícone cult, o Cosmo virou curiosidade. Mas para quem conhece, para quem entende, o Cosmo representa o que a Mazda tinha de melhor nos anos 90: ousadia, tecnologia e aquele ronco rotativo inconfundível. E isso, convenhamos, não tem preço.









