Leapmotor dribla falta de navios e importa carros em pranchas

A Leapmotor dribla falta de navios e passa a importar carros amarrados em pranchas flat rack, uma solução logística que contorna o gargalo de navios porta-veículos na rota China-Brasil. Com a demanda global por transporte marítimo de automóveis em alta, a marca chinesa, que tem a Stellantis como sócia global, adotou o sistema de contêineres especiais para acelerar a chegada dos modelos T03 e C10 ao mercado nacional sem depender da disponibilidade limitada de navios roll-on/roll-off tradicionais.

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O método não é novo na indústria, mas ganha relevância quando fabricantes enfrentam prazos apertados e consumidores ansiosos por entregas. A Leapmotor aposta nessa alternativa para manter o cronograma de lançamento e evitar atrasos que poderiam custar market share num segmento que cresce 35% ao ano no Brasil, segundo dados da ABVE (Associação Brasileira do Veículo Elétrico).

O que são flat racks e como funcionam na prática

Flat rack é uma estrutura metálica plana com laterais dobráveis, projetada para carga que não cabe em contêineres convencionais. Na logística automotiva, os carros são fixados sobre essas plataformas com cintas de alta resistência, empilhados em até dois níveis dentro de navios porta-contêineres comuns. Cada flat rack comporta um veículo compacto como o T03 ou modelos maiores como o C10, dependendo das dimensões e do peso.

O processo exige cuidado redobrado: os veículos são amarrados em pontos estruturais específicos do chassi, protegidos com lonas resistentes a maresia e posicionados de forma a distribuir o peso uniformemente. Diferente dos navios roll-on/roll-off, onde os carros entram dirigindo por rampas internas, aqui eles são içados por guindastes e encaixados nos slots do navio como qualquer carga containerizada.

A vantagem imediata está na disponibilidade de espaço. Navios porta-contêineres operam rotas regulares entre portos chineses e brasileiros com frequência semanal, enquanto navios porta-veículos podem levar 45 a 60 dias para completar um ciclo completo, incluindo paradas em outros mercados. Para a Leapmotor, isso significa reduzir o tempo entre produção e entrega ao concessionário em até três semanas.

Por que a falta de navios virou problema estratégico

A escassez de navios porta-veículos não afeta só a Leapmotor. Desde 2022, a demanda global por esse tipo de embarcação cresceu 28%, impulsionada pela eletrificação acelerada na Europa e pela expansão das marcas chinesas para mercados emergentes. O Brasil entrou nessa disputa tarde, quando a capacidade já estava comprometida.

Dados da Clarksons Research mostram que a frota mundial de navios roll-on/roll-off cresceu apenas 4% entre 2020 e 2024, enquanto o volume de veículos exportados da China saltou 67% no mesmo período. O resultado: frete marítimo que custava US$ 800 por unidade em 2021 chegou a US$ 2.100 em rotas para a América do Sul no primeiro trimestre de 2024.

Para montadoras que planejam volumes mensais de 1.000 a 3.000 unidades, como é o caso da Leapmotor no estágio inicial, depender exclusivamente de navios dedicados significa aceitar janelas de embarque espaçadas e custos voláteis. O flat rack oferece previsibilidade: o custo por contêiner varia menos que o frete de veículos soltos, e a programação de saídas é semanal nos principais portos chineses.

Impacto no custo final e na competitividade

Transportar um carro em flat rack custa entre 15% e 25% a mais que em navio porta-veículos, segundo estimativas de operadores logísticos consultados pela ANFAVEA. Esse valor adicional vem do espaço ocupado: um contêiner flat rack de 40 pés leva no máximo dois carros compactos, enquanto um navio roll-on/roll-off tradicional acomoda 6.000 a 8.000 veículos por viagem, diluindo custos fixos.

No caso do Leapmotor T03, que a marca pretende posicionar abaixo de R$ 150.000 no Brasil, cada R$ 3.000 a R$ 5.000 extras no frete pesam na margem. Mas o cálculo não é linear: chegar três semanas antes pode significar capturar demanda reprimida, evitar desvalorização cambial ou antecipar receita que compensa o custo logístico adicional.

A Stellantis, que detém 51% da joint venture Leapmotor International, tem expertise em otimizar cadeias de suprimento. A expectativa é que, conforme o volume cresça e a marca conquiste escala no Brasil, parte da operação migre para navios dedicados, reservando o flat rack para lotes urgentes ou modelos de nicho.

A solução flat rack não é permanente, mas resolve o problema de quem precisa estar no mercado agora, sem esperar a infraestrutura ideal se ajustar. É pragmatismo logístico aplicado.

Leapmotor T03 e C10: os modelos que chegam nesse sistema

O T03 é um hatchback elétrico compacto de 3,62 m de comprimento, motor de 80 cv e bateria de 41,3 kWh que promete até 280 km de autonomia no ciclo WLTP. Pesa 1.120 kg, o que facilita o manuseio em flat rack e reduz o risco de danos estruturais durante o transporte marítimo. No mercado chinês, é um dos elétricos mais vendidos na faixa abaixo de ¥ 80.000 (cerca de R$ 60.000 em conversão direta, sem impostos).

Já o C10 é um SUV elétrico de 4,73 m, motor de 231 cv, bateria de 69,9 kWh e autonomia de até 420 km. Pesa 1.980 kg e compete no segmento de SUVs médios, onde BYD Song Plus e GWM Ora já marcam presença. A expectativa é que chegue ao Brasil entre R$ 220.000 e R$ 250.000, dependendo da configuração e da estratégia de precificação da Stellantis.

Ambos os modelos passam por homologação no INMETRO e testes de adaptação para condições brasileiras, incluindo calibração de suspensão para asfalto irregular e ajuste de software para etanol (em futuras versões híbridas plug-in, se houver). A chegada via flat rack permite que lotes menores de pré-série e unidades de demonstração cheguem antes do volume comercial, acelerando o processo de certificação e treinamento de concessionárias.

O que muda para o consumidor final

Na prática, o comprador não percebe diferença. O carro chega ao concessionário com os mesmos padrões de qualidade, passa pelas mesmas inspeções de PDI (Pre-Delivery Inspection) e tem a mesma garantia de fábrica. A única variável que pode mudar é o prazo de entrega: com embarques mais frequentes, a Leapmotor consegue reduzir o tempo entre pedido e emplacamento.

Para quem acompanha o mercado de elétricos, isso significa menos espera em lista e mais previsibilidade. Marcas que dependem de navios porta-veículos enfrentam janelas de três a quatro meses entre lotes, o que gera frustração em compradores e dificulta o planejamento de estoque dos revendedores. Com flat rack, a cadência pode cair para seis a oito semanas, ainda longe do ideal, mas competitiva frente a rivais chinesas que enfrentam o mesmo gargalo.

Outro ponto relevante: a Leapmotor pode ajustar o mix de modelos com mais agilidade. Se o T03 vende mais que o esperado e o C10 encalha, a marca reequilibra a próxima remessa sem precisar esperar um navio inteiro. Essa flexibilidade é valiosa num mercado que ainda descobre suas preferências em matéria de elétricos.

Comparação com outras marcas chinesas no Brasil

A Leapmotor não é a primeira a usar flat rack. A BYD recorreu ao método em 2022 para antecipar a chegada do Dolphin e do Seal, antes de firmar contratos de longo prazo com armadores. A GWM também testou a solução para o Ora 03, mas migrou para navios dedicados quando o volume mensal ultrapassou 1.500 unidades.

O diferencial da Leapmotor está no timing: a marca entra no Brasil com a Stellantis já estruturada, rede de concessionárias em formação e cronograma apertado para aproveitar a janela de incentivos fiscais a veículos eletrificados. Esperar navios porta-veículos disponíveis poderia atrasar o lançamento em até seis meses, tempo suficiente para concorrentes consolidarem posição.

Enquanto isso, marcas europeias e coreanas que operam fábricas locais ou têm volumes robustos de importação mantêm contratos firmes com armadores, garantindo espaço mesmo em períodos de alta demanda. A Leapmotor, como entrante, precisa ser criativa até conquistar escala que justifique acordos de longo prazo.

Perguntas frequentes sobre a importação em flat rack

O carro chega danificado por vir amarrado em prancha?

Não, quando bem executado. Os veículos são fixados em pontos estruturais do chassi com cintas testadas para suportar o dobro do peso do carro, protegidos com capas impermeáveis e monitorados durante o trajeto. Inspeções de qualidade no porto de destino verificam pintura, mecânica e eletrônica antes da liberação.

O custo extra do frete é repassado ao consumidor?

Parcialmente. A Leapmotor precisa equilibrar competitividade de preço com viabilidade financeira. O custo adicional do flat rack tende a ser absorvido na margem da operação inicial, mas pode influenciar o preço final se o dólar disparar ou o volume não crescer conforme o esperado.

Quanto tempo leva o transporte da China ao Brasil?

Entre 30 e 45 dias de porto a porto, mais 10 a 15 dias de desembaraço aduaneiro, PDI e distribuição aos concessionários. No total, 50 a 60 dias entre o embarque na China e a entrega ao cliente, contra 70 a 90 dias em navios porta-veículos com escalas múltiplas.

Outros modelos da Leapmotor virão pelo mesmo método?

Depende do volume e da disponibilidade de navios. A marca planeja lançar ao menos quatro modelos no Brasil até 2026. Se as vendas justificarem, a Stellantis pode negociar espaço fixo em navios roll-on/roll-off, reservando o flat rack para lançamentos e lotes especiais.

Esse sistema é usado por outras indústrias?

Sim. Máquinas agrícolas, equipamentos de construção e até iates são transportados em flat rack quando o volume não justifica fretamento dedicado. Na indústria automotiva, é comum para protótipos, carros de competição e edições limitadas que não cabem na logística convencional.

A Leapmotor vai montar carros no Brasil?

Não há confirmação oficial, mas a Stellantis tem plantas ociosas em Betim e Goiana que poderiam receber linhas de montagem CKD (completely knocked down) se o volume ultrapassar 20.000 unidades anuais. Por enquanto, a estratégia é importação direta com flat rack e navios porta-veículos conforme a demanda escalar.

Se você acompanha o mercado de elétricos ou está de olho no T03 e no C10, vale conferir os prazos de entrega diretamente com os concessionários Stellantis credenciados. A Leapmotor promete abrir pedidos ainda no segundo semestre de 2024, com primeiras entregas previstas para o quarto trimestre, justamente quando os primeiros lotes via flat rack devem desembarcar nos portos de Santos e Suape.

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