O Alfa Romeo 164: sedã inovador chegou ao Brasil por mais de R$ 1,7 milhão em valores corrigidos pela inflação, representando um dos automóveis mais exclusivos e desejados do mercado brasileiro nos anos 90. Lançado na Europa em 1987, o 164 marcou a entrada da Alfa Romeo no segmento de sedãs executivos de luxo, competindo diretamente com BMW Série 5, Mercedes-Benz Classe E e Audi 100. No volante, o motorista experimentava a combinação única de esportividade italiana com refinamento executivo, algo raro mesmo entre os melhores sedãs da época.
A chegada oficial ao Brasil aconteceu em 1989, quando a Fiat Automóveis importou algumas unidades da versão topo de linha 3.0 V6. O preço na época beirava os US$ 50 mil, valor que hoje corresponde a aproximadamente R$ 1,7 milhão quando ajustado pela inflação e paridade de poder de compra. Esse posicionamento colocava o 164 acima até mesmo de modelos como o Mercedes-Benz 500 SEL, tornando-o acessível apenas para um grupo extremamente restrito de compradores.
Design Pininfarina que revolucionou o segmento executivo
O projeto de design do Alfa Romeo 164 nasceu das mãos de Enrico Fumia na Pininfarina, quebrando os padrões estabelecidos para sedãs executivos da época. Enquanto alemães apostavam em linhas retas e conservadoras, o 164 trouxe curvas sensuais, para-lamas pronunciados e uma frente inconfundível com o tradicional escudo triangular Alfa Romeo. As dimensões eram generosas: 4,67 metros de comprimento, 1,76 metro de largura e 1,41 metro de altura, com entre-eixos de 2,66 metros garantindo espaço interno digno de executivo.
O coeficiente aerodinâmico de 0,30 Cx impressionava em 1987, resultado de 1.200 horas de testes em túnel de vento. Na prática, isso significava estabilidade acima de 200 km/h e consumo reduzido para os padrões da categoria. Os faróis escamoteáveis, tendência da época, adicionavam drama visual quando acionados, embora fossem fonte de dores de cabeça para os proprietários brasileiros devido à complexidade mecânica e falta de peças de reposição.
Interior que misturava luxo italiano com ergonomia questionável
Por dentro, o 164 exibia acabamento em couro Connolly legítimo, madeira Radica di Olmo (raiz de olmo) e carpetes de lã. O painel trazia instrumentação completa com conta-giros central chegando a 7.500 rpm, velocímetro marcando até 260 km/h e relógios auxiliares para temperatura de óleo, pressão e voltagem. O computador de bordo, novidade para o mercado brasileiro, informava consumo médio, autonomia e temperatura externa.
O volante de três raios com regulagem de altura e profundidade, bancos elétricos com memória e ar-condicionado automático digital completavam o pacote de conforto. Porém, a ergonomia italiana cobrava seu preço: botões espalhados sem lógica aparente, comandos do ar-condicionado de difícil acesso e posição de dirigir que exigia adaptação. Quem vinha de um BMW ou Mercedes precisava de dias para se acostumar com a disposição dos controles.
Motor Busso V6: a alma mecânica do projeto
O coração do Alfa Romeo 164 vendido no Brasil era o lendário motor V6 de 3.0 litros projetado por Giuseppe Busso, considerado até hoje uma das obras-primas da engenharia automotiva. Com 200 cv a 6.000 rpm e 27,5 mkgf de torque a 4.500 rpm, o propulsor entregava performance digna de esportivo: 0 a 100 km/h em 7,8 segundos e velocidade máxima de 235 km/h, números que envergonhavam muitos carros vendidos como esportivos puros.
A configuração em V de 60 graus com dois comandos de válvulas no cabeçote (DOHC) e quatro válvulas por cilindro resultava em resposta instantânea ao acelerador e uma sonoridade inconfundível. O ronco do V6 Busso em alta rotação permanece como referência de prazer auditivo automotivo, misturando o rugido grave de motor grande com o grito agudo de propulsor de alta rotação. Nas ruas brasileiras, esse som virava cabeças com mais eficiência que qualquer Ferrari.
Transmissão e chassi afinados para prazer ao dirigir
O câmbio manual de cinco marchas com relações curtas privilegiava a esportividade, embora versões europeias oferecessem opção de automático de quatro velocidades (raramente visto no Brasil). A tração dianteira, compartilhada com Fiat Croma, Lancia Thema e Saab 9000 na plataforma Type Four, surpreendia pela capacidade de transmitir 200 cv ao asfalto sem torque steer excessivo, mérito da geometria de suspensão McPherson à frente e multilink atrás.
A direção hidráulica ZF oferecia peso progressivo com a velocidade, leve para manobras urbanas e firme em alta velocidade. Os freios a disco nas quatro rodas com ABS Bosch (item raro no Brasil de 1989) garantiam frenagens seguras e progressivas. Na estrada, o 164 revelava equilíbrio dinâmico superior à maioria dos sedãs executivos alemães, com traseira plantada e frente comunicativa que convidava a explorar curvas com entusiasmo.
Vida real no Brasil: exclusividade que custava caro
Possuir um Alfa Romeo 164 no Brasil dos anos 90 significava enfrentar desafios proporcionais ao preço de compra. A rede de concessionárias Alfa Romeo era praticamente inexistente fora de São Paulo e Rio de Janeiro, forçando proprietários de outras regiões a depender de mecânicos generalistas ou voos para manutenção. Peças de reposição vinham da Itália com prazos de 60 a 90 dias e valores estratosféricos: um jogo de pastilhas de freio custava o equivalente a dois salários mínimos da época.
O consumo médio ficava entre 6 e 7 km/l na cidade e 10 a 11 km/l em estrada, números aceitáveis para um motor 3.0 V6 de 200 cv. Porém, a exigência de gasolina de alta octanagem (difícil de encontrar com qualidade consistente no Brasil) e trocas de óleo a cada 5.000 km com lubrificante sintético importado elevavam o custo operacional. O seguro, quando alguma seguradora aceitava fazer, custava entre 8% e 12% do valor do veículo anualmente.
Problemas recorrentes e soluções criativas
Os proprietários brasileiros relatavam falhas comuns: sistema elétrico temperamental com fusíveis queimando sem motivo aparente, ar-condicionado que parava de funcionar em dias quentes (ironia cruel), vazamentos de óleo na junta do cárter e desgaste prematuro da embreagem quando submetida ao trânsito urbano intenso. Os faróis escamoteáveis travavam com frequência, especialmente após chuvas, exigindo intervenção manual.
A solução? Proprietários apaixonados desenvolveram rede informal de conhecimento, trocando informações sobre mecânicos de confiança, fontes alternativas de peças (muitas vezes adaptadas de outros modelos Fiat) e gambiarras engenhosas para manter os carros rodando. Alguns importavam peças diretamente de clubes italianos, enquanto outros fabricavam componentes sob medida em tornearias especializadas. Essa dedicação transformava a propriedade em hobby tanto quanto meio de transporte.
Legado e valorização no mercado de clássicos
A produção do Alfa Romeo 164 encerrou em 1998 após 273.857 unidades fabricadas em 11 anos. No Brasil, estima-se que menos de 100 exemplares foram oficialmente importados, com talvez 20 a 30 sobreviventes em condições de circular. Essa raridade extrema transformou o modelo em peça de colecionador, com valores atuais variando entre R$ 80 mil para exemplares necessitando restauração até R$ 250 mil para unidades impecáveis com documentação completa.
O 164 representa o último sedã executivo da Alfa Romeo antes da marca se afastar do segmento por quase duas décadas (até o retorno com o Giulia em 2016). Para entusiastas, simboliza a época dourada quando sedãs italianos competiam de igual para igual com alemães em performance e superavam em paixão. O motor V6 Busso, em particular, ganhou status de lenda, sendo produzido até 2005 e considerado por muitos o melhor motor de seis cilindros já fabricado.
Comparação com rivais da época no mercado brasileiro
Em 1989, o comprador com R$ 1,7 milhão (em valores atualizados) podia escolher entre:
- BMW 535i E34: 211 cv, câmbio automático, conforto germânico e rede de assistência consolidada, mas sem o carisma italiano
- Mercedes-Benz 300 E W124: 188 cv, indestrutibilidade lendária, revenda garantida, porém imagem mais conservadora
- Audi 200 Turbo Quattro: tração integral, tecnologia avançada, mas design discreto demais para quem buscava exclusividade
- Jaguar XJ6: elegância britânica, motor seis em linha suave, confiabilidade questionável (pior que o Alfa)
O Alfa Romeo 164 vencia em design, som do motor e prazer de dirigir. Perdia feio em confiabilidade, custo de manutenção e revenda. A escolha racional apontava para BMW ou Mercedes. A escolha emocional, para o Alfa. Quem comprava sabia exatamente o que estava fazendo: priorizando paixão sobre praticidade.
Perguntas frequentes sobre o Alfa Romeo 164
Quantos Alfa Romeo 164 ainda existem no Brasil?
Estimativas de clubes de proprietários indicam entre 20 e 30 unidades em condições de rodar, de um total de menos de 100 importadas oficialmente. A maioria concentra-se em São Paulo e Rio de Janeiro. Alguns exemplares foram desmanchados para peças, enquanto outros aguardam restauração em garagens.
Quanto custa manter um Alfa Romeo 164 funcionando hoje?
Proprietários relatam gastos anuais entre R$ 15 mil e R$ 30 mil incluindo manutenção preventiva, peças importadas e imprevistos. Uma revisão completa com troca de correia dentada, velas, filtros e fluidos pode custar R$ 8 mil a R$ 12 mil em oficina especializada. Peças específicas como bomba de combustível ou módulo eletrônico exigem importação com valores de R$ 3 mil a R$ 8 mil.
O motor V6 Busso é realmente tão especial?
Sim. O V6 de 3.0 litros projetado por Giuseppe Busso combina durabilidade (quando bem mantido), resposta linear e sonoridade única. Muitos especialistas consideram o melhor motor de seis cilindros aspirado já produzido, superando até mesmo unidades BMW e Mercedes da mesma época em caráter e prazer auditivo. A configuração em V de 60 graus com quatro válvulas por cilindro era avançada para 1987.
Vale a pena comprar um Alfa Romeo 164 hoje como investimento?
Como investimento financeiro puro, não. A valorização não acompanha modelos alemães equivalentes, e os custos de manutenção corroem qualquer ganho de capital. Como investimento emocional para entusiasta disposto a lidar com peculiaridades italianas, absolutamente. O prazer de dirigir e a exclusividade compensam para quem valoriza experiência sobre planilha de Excel. Compre se apaixonar, não esperando lucro na revenda.
Onde encontrar peças para Alfa Romeo 164 no Brasil?
A rede oficial Alfa Romeo não suporta mais o modelo. Opções incluem: importação direta de fornecedores europeus via eBay ou Alfa Romeo Ricambi, clubes de proprietários com estoque de peças usadas, adaptação de componentes de Fiat Croma e Lancia Thema (que compartilham plataforma), e fabricação sob medida em oficinas especializadas. Grupos de WhatsApp e Facebook de proprietários funcionam como rede de apoio essencial.
O Alfa Romeo 164 pode rodar com etanol?
Tecnicamente não foi projetado para etanol puro, mas alguns proprietários brasileiros adaptaram o sistema de injeção e ignição para aceitar mistura flex. A conversão exige reprogramação da central eletrônica, troca de bicos injetores, bomba de combustível de maior vazão e ajuste do ponto de ignição. O resultado divide opiniões: alguns relatam funcionamento perfeito, outros enfrentam problemas de partida a frio e corrosão acelerada. A recomendação oficial permanece gasolina premium.








