GWM confirma segunda fábrica no Brasil para produzir o novo Ora 5, ampliando a presença da marca chinesa no mercado nacional com investimento de R$ 4,6 bilhões. A nova unidade industrial será instalada em Aracruz, no Espírito Santo, e vai produzir não só o hatchback elétrico Ora 5, mas também modelos híbridos e a combustão da Great Wall Motors. O anúncio foi feito pela própria montadora em evento corporativo, confirmando o que já circulava nos bastidores da indústria automotiva desde o segundo semestre de 2024. A decisão marca um passo estratégico da GWM para reduzir custos de importação, driblar barreiras tributárias e competir de igual para igual com marcas já consolidadas no segmento de eletrificados no Brasil.
A escolha de Aracruz como sede da nova planta não foi casual. O município capixaba oferece incentivos fiscais robustos, infraestrutura portuária próxima (Porto de Vitória a 60 km) e mão de obra qualificada oriunda da região metropolitana de Vitória. A localização estratégica facilita tanto a importação de componentes da China quanto a distribuição para o Sudeste e Nordeste, regiões que concentram 70% das vendas de carros elétricos no Brasil segundo dados da ABVE (Associação Brasileira do Veículo Elétrico). A fábrica existente da GWM em Iracemápolis (SP), inaugurada em 2023, continuará operando com foco em modelos a combustão e híbridos de maior porte, enquanto Aracruz se especializará em eletrificados compactos e médios.
Por que a GWM aposta em uma segunda fábrica agora
O timing do investimento reflete a estratégia da GWM de surfar na onda de eletrificação do mercado brasileiro antes que a concorrência chinesa se estabeleça em força. BYD já produz localmente, Chery anunciou fábrica em Camaçari (BA) para 2025, e a JAC amplia capacidade em Camaçari. A GWM precisa nacionalizar componentes para reduzir o preço final do Ora 5, que hoje chega ao Brasil importado por valores entre R$ 150 mil e R$ 180 mil, dependendo da versão e momento cambial. Com produção local, a expectativa da própria montadora é baixar o preço de entrada para a casa dos R$ 120 mil a R$ 130 mil, tornando o hatchback elétrico competitivo frente ao BYD Dolphin (R$ 149.800) e ao Nissan Leaf usado, opção recorrente de quem busca elétrico acessível.
Além do fator preço, a nacionalização permite acesso ao Programa Mover, que substituiu o antigo Rota 2030 e oferece créditos fiscais para montadoras que investem em pesquisa, desenvolvimento e produção local de veículos eletrificados. A GWM pode abater até 15% do IPI sobre peças e componentes produzidos no Brasil, desde que cumpra metas de conteúdo regional mínimo de 40% nos primeiros dois anos e 60% a partir do terceiro ano. Isso significa trazer fornecedores da cadeia de baterias, motores elétricos e inversores para o entorno da fábrica, gerando empregos e transferência tecnológica real.
O que é o Ora 5 e por que ele importa
O Ora 5 é um hatchback elétrico de porte médio, com 4,77 m de comprimento, 1,86 m de largura e entre-eixos de 2,70 m. No mercado chinês, onde é vendido como Ora Lightning Cat (nome comercial na China), o modelo oferece duas opções de bateria: 60 kWh com autonomia de 420 km (ciclo CLTC chinês, equivalente a cerca de 340 km no WLTP europeu) e 83 kWh com autonomia de 555 km CLTC (aproximadamente 450 km WLTP). O motor elétrico entrega 204 cv de potência e 340 Nm de torque, acelerando de 0 a 100 km/h em 7,5 segundos, números que colocam o Ora 5 no mesmo patamar de desempenho do BYD Dolphin (204 cv, 310 Nm, 7,0 s) e do Nissan Leaf e-Plus (214 cv, 340 Nm, 6,9 s).
No Brasil, a versão importada atual traz a bateria de 60 kWh, recarga rápida DC de até 80 kW (10-80% em 40 minutos) e recarga AC de 11 kW (0-100% em 6 horas). O interior é equipado com painel digital de 10,25 polegadas, central multimídia de 12,3 polegadas com Android Auto e Apple CarPlay sem fio, bancos em couro sintético, teto solar panorâmico e pacote ADAS com frenagem autônoma de emergência, alerta de ponto cego, assistente de permanência em faixa e controle de cruzeiro adaptativo. A ficha técnica é competitiva, mas o preço de importado afasta o comprador de classe média que busca elétrico como segundo carro urbano.
“A produção local do Ora 5 em Aracruz permitirá à GWM oferecer um elétrico de verdade por preço de híbrido premium, ampliando o acesso à eletrificação para além do nicho de early adopters.” — Executivo da GWM em evento de anúncio da fábrica
Investimento de R$ 4,6 bilhões: para onde vai o dinheiro
O aporte de R$ 4,6 bilhões será distribuído ao longo de cinco anos, segundo cronograma divulgado pela GWM. A primeira fase, com investimento de R$ 1,8 bilhão até 2026, inclui terraplanagem, construção das linhas de montagem, estamparia e pintura, além da instalação de infraestrutura de testes e centro de distribuição. A segunda fase, com R$ 2,8 bilhões até 2028, prevê a instalação de linhas de montagem de baterias, importação de células da CATL (fornecedor chinês que já atende BYD e Tesla) e montagem local dos packs, elevando o índice de nacionalização para 60%. A fábrica terá capacidade inicial de 50 mil unidades/ano, podendo chegar a 100 mil unidades/ano com segundo turno e linha adicional.
Vale notar que a GWM negocia com o governo do Espírito Santo incentivos que incluem isenção de ICMS sobre importação de máquinas e equipamentos, redução de alíquota de ICMS sobre veículos produzidos localmente de 12% para 7% nos primeiros cinco anos, e cessão de terreno de 1,2 milhão de m² no distrito industrial de Aracruz. Em contrapartida, a montadora se compromete a gerar 3.500 empregos diretos até 2028 e 10 mil indiretos na cadeia de fornecedores, números auditados pela Secretaria de Desenvolvimento Econômico do estado.
Cronograma de produção e modelos previstos
- 2026 (1º semestre): início da produção do Ora 5 em versão única de 60 kWh, estimativa de 15 mil unidades no primeiro ano
- 2027: lançamento da versão de 83 kWh nacionalizada, ampliação para 35 mil unidades/ano
- 2028: entrada de SUV elétrico médio (ainda não confirmado qual modelo da linha Ora ou Haval), capacidade plena de 50 mil unidades/ano
- 2029: possível produção de híbridos plug-in da linha Haval, expansão para 100 mil unidades/ano com segundo turno
Impacto no preço e competitividade do Ora 5 nacional
A nacionalização do Ora 5 deve derrubar o preço em cerca de 20% a 25% em relação à versão importada, segundo projeções de analistas do setor. O cálculo leva em conta a eliminação do Imposto de Importação de 35% sobre veículos prontos, redução de IPI via Programa Mover, e ganho de escala na logística. Um Ora 5 importado hoje sai por R$ 159.900 na versão única disponível. Com produção em Aracruz, o preço estimado ficaria entre R$ 125 mil e R$ 135 mil, dependendo do mix de conteúdo local atingido e da política de precificação da GWM frente à concorrência.
Nessa faixa de preço, o Ora 5 nacional enfrentaria diretamente o BYD Dolphin (R$ 149.800 na versão de entrada, 204 cv, bateria de 44,9 kWh, autonomia de 291 km WLTP), o Nissan Leaf usado de 2019-2021 (R$ 120 mil a R$ 140 mil na tabela FIPE, 148 cv, bateria de 40 kWh, autonomia de 270 km WLTP) e, indiretamente, híbridos plug-in como o BYD Song Plus DM-i (R$ 229.800, mas com autonomia elétrica de apenas 51 km). A vantagem do Ora 5 seria oferecer autonomia elétrica real de 340 km (suficiente para uso urbano semanal sem recarga) por preço de compacto premium a combustão como o Volkswagen T-Cross Highline (R$ 139.990).
Custo de propriedade: elétrico nacional versus importado
Além do preço de compra, a nacionalização reduz custos de manutenção e reposição de peças. Um Ora 5 importado depende de peças vindas da China com prazo de 60 a 90 dias e custo majorado por frete e câmbio. Com produção local, a GWM poderá estocar peças de reposição na rede de 40 concessionárias já instaladas no Brasil, reduzindo o tempo de espera para 15 a 30 dias e o custo de peças em até 30%. O seguro também tende a cair: a média de seguro para elétricos importados gira em torno de 8% a 10% do valor do veículo ao ano (R$ 12.800 a R$ 16.000 para um Ora 5 de R$ 160 mil), enquanto modelos nacionais ficam na casa de 6% a 7% (R$ 7.500 a R$ 9.100 para um Ora 5 de R$ 130 mil), segundo simulações em seguradoras como Porto Seguro e Mapfre.
Desafios da produção local de elétricos no Brasil
Produzir elétricos no Brasil não é só apertar parafuso. A cadeia de fornecimento de baterias de íon de lítio ainda é incipiente: o Brasil importa 100% das células de bateria da China, Coreia do Sul e Japão, porque não há produção local de cátodos (NMC, LFP) nem ânodos de grafite em escala industrial. A GWM vai montar os packs de bateria em Aracruz, mas as células virão da CATL via importação, o que mantém o componente mais caro do veículo (bateria representa 40% do custo de um elétrico) exposto a variação cambial e tarifas de importação de insumos.
Outro desafio é a infraestrutura de recarga. O Brasil tem cerca de 5.500 pontos de recarga públicos segundo a ABVE, concentrados em São Paulo (2.100), Rio de Janeiro (800) e Minas Gerais (600). O Espírito Santo possui apenas 120 pontos, insuficientes para suportar uma frota crescente de elétricos. A GWM sinalizou que vai investir em rede própria de recarga rápida em parceria com redes como Tupinambá e Zletric, instalando 50 pontos DC de 80 kW em rodovias federais que cortam o Espírito Santo (BR-101, BR-262) e capitais do Sudeste até 2027.
Perguntas frequentes sobre a nova fábrica da GWM e o Ora 5
Quando o Ora 5 nacional começa a ser vendido?
A previsão da GWM é iniciar as vendas do Ora 5 produzido em Aracruz no segundo semestre de 2026, com pré-venda aberta a partir do primeiro trimestre do mesmo ano. As primeiras unidades serão destinadas a frotistas e early adopters cadastrados no programa de interesse da marca.
O preço do Ora 5 nacional será muito mais baixo que o importado?
Sim. A expectativa é que o Ora 5 nacional custe entre R$ 125 mil e R$ 135 mil, cerca de R$ 25 mil a R$ 35 mil abaixo da versão importada atual. A redução vem da eliminação de impostos de importação e ganhos de escala na logística e fornecimento de peças.
Quais outros modelos a GWM vai produzir em Aracruz além do Ora 5?
A fábrica está projetada para produzir SUVs elétricos médios da linha Ora ou Haval a partir de 2028, e híbridos plug-in da linha Haval a partir de 2029. A montadora não confirmou modelos específicos, mas analistas apontam o Haval H6 PHEV e o Ora Lightning Cat (versão sedã do Ora 5) como candidatos.
A GWM vai montar baterias no Brasil ou só importar?
A GWM vai montar os packs de bateria em Aracruz a partir de 2027, usando células importadas da CATL. A montagem local eleva o índice de nacionalização e permite acesso a incentivos do Programa Mover, mas as células continuarão vindo da China até que surja produção local de cátodos e ânodos no Brasil.
Quantos empregos a nova fábrica vai gerar?
A GWM se comprometeu a gerar 3.500 empregos diretos até 2028 e 10 mil indiretos na cadeia de fornecedores, segundo acordo com o governo do Espírito Santo. Os números serão auditados anualmente pela Secretaria de Desenvolvimento Econômico do estado.
O Ora 5 nacional terá as mesmas especificações da versão importada?
Sim. A GWM confirmou que o Ora 5 produzido em Aracruz terá as mesmas especificações técnicas da versão importada: motor de 204 cv, bateria de 60 kWh (versão inicial) e 83 kWh (a partir de 2027), autonomia de 340 km a 450 km WLTP, e pacote ADAS completo. A nacionalização afeta apenas o custo, não a configuração.
Se você acompanha o mercado de elétricos no Brasil e quer saber quando o Ora 5 nacional chega às concessionárias, vale cadastrar interesse no site da GWM Brasil. A montadora promete condições especiais de pré-venda para os primeiros 500 cadastrados, incluindo wallbox de recarga residencial sem custo e três anos de manutenção gratuita na rede autorizada.








