A CCJ aprovou proposta para cobrar IPVA com base no peso do carro, e a mudança pode reduzir o imposto para até 1% em veículos mais leves. A Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 268/2024, apresentada pelo deputado federal Kim Kataguiri (União-SP), altera completamente o sistema atual de cobrança do IPVA no Brasil, substituindo o cálculo baseado no valor venal do veículo por uma tabela progressiva que considera apenas o peso. A proposta foi aprovada pela Comissão de Constituição e Justiça da Câmara dos Deputados em março de 2024 e agora aguarda tramitação no plenário.
O texto estabelece quatro faixas de peso com alíquotas que variam de 1% a 4%. Veículos com até 1.000 kg pagariam apenas 1% de IPVA sobre o valor de mercado. Entre 1.001 kg e 1.500 kg, a alíquota sobe para 2%. Carros de 1.501 kg a 2.000 kg teriam 3%, enquanto veículos acima de 2.000 kg pagariam 4%. A justificativa do autor: veículos mais pesados causam maior desgaste no asfalto e, portanto, deveriam contribuir proporcionalmente mais para a manutenção das vias públicas.
Como funciona o sistema atual de IPVA e o que muda com a proposta
Hoje, cada estado brasileiro define sua própria alíquota de IPVA, geralmente entre 2% e 4% sobre o valor venal do veículo conforme a tabela FIPE. São Paulo cobra 4% para carros de passeio, Rio de Janeiro aplica 4% para veículos a gasolina e 1,5% para movidos a álcool, enquanto Minas Gerais trabalha com 4% em quase todos os casos. O resultado: um carro de R$ 100 mil paga R$ 4 mil de IPVA anualmente em SP, independentemente do peso ou do impacto que causa na infraestrutura.
Com a PEC 268/2024, o critério de cobrança muda radicalmente. O peso passa a ser o único fator determinante da alíquota, enquanto o valor venal continua sendo a base de cálculo. Na prática, um Fiat Mobi (cerca de 940 kg) pagaria 1% sobre seu valor de mercado, aproximadamente R$ 650 anuais considerando preço médio de R$ 65 mil. Já um Toyota Corolla (1.345 kg) pagaria 2%, resultando em cerca de R$ 2.600 sobre valor médio de R$ 130 mil. Um Ford Ranger (2.100 kg) cairia na faixa de 4%, gerando IPVA de R$ 8 mil sobre valor de R$ 200 mil.
A mudança beneficia claramente proprietários de carros compactos e penaliza quem dirige SUVs, picapes e veículos premium mais pesados. Vale notar que a proposta não altera a competência estadual sobre o IPVA, apenas estabelece critérios constitucionais que os estados precisariam seguir caso a PEC seja aprovada e promulgada.
Quem paga menos e quem paga mais com o IPVA baseado em peso
A distribuição de impacto é clara quando analisamos segmentos específicos do mercado brasileiro. Hatches compactos saem ganhando de forma expressiva. O Volkswagen Gol (980 kg) pagaria 1%, cerca de R$ 700 sobre valor médio de R$ 70 mil. O Hyundai HB20 (1.020 kg) ficaria na segunda faixa com 2%, resultando em R$ 1.600 sobre R$ 80 mil. Mesmo o Chevrolet Onix (1.070 kg), líder de vendas nacional, permaneceria na faixa de 2%, com IPVA de aproximadamente R$ 1.800 sobre R$ 90 mil.
Sedãs médios enfrentam situação variada. O Honda Civic (1.358 kg) pagaria 2%, cerca de R$ 3.800 sobre R$ 190 mil. O Volkswagen Jetta (1.450 kg) permaneceria na mesma faixa com R$ 3.000 sobre R$ 150 mil. Quando o peso ultrapassa 1.500 kg, a alíquota sobe para 3%: o Toyota Camry (1.590 kg) pagaria R$ 6.600 sobre R$ 220 mil, enquanto o Chevrolet Cruze (1.520 kg) teria IPVA de R$ 3.900 sobre R$ 130 mil.
SUVs e picapes são os mais afetados. O Jeep Compass (1.650 kg) pagaria 3%, cerca de R$ 5.100 sobre R$ 170 mil. O Chevrolet Tracker (1.380 kg) escaparia com 2%, resultando em R$ 2.800 sobre R$ 140 mil. Quando o peso supera 2.000 kg, a alíquota máxima de 4% entra em cena: Toyota SW4 (2.200 kg) pagaria R$ 12 mil sobre R$ 300 mil, Ford Ranger (2.100 kg) teria IPVA de R$ 8 mil sobre R$ 200 mil, e Chevrolet S10 (2.050 kg) pagaria R$ 7.200 sobre R$ 180 mil.
Veículos elétricos e híbridos também entram na conta. O BYD Dolphin (1.750 kg, bateria inclusa) pagaria 3%, cerca de R$ 4.500 sobre R$ 150 mil. O Nissan Leaf (1.580 kg) ficaria na mesma faixa com R$ 4.200 sobre R$ 140 mil. O Volvo XC40 Recharge (2.188 kg) cairia na alíquota máxima de 4%, resultando em R$ 12.800 sobre R$ 320 mil.
Justificativa técnica: desgaste de asfalto e custo de infraestrutura
O deputado Kim Kataguiri fundamenta a PEC 268/2024 em estudos de engenharia rodoviária que demonstram relação direta entre peso do veículo e degradação do pavimento. Segundo dados do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT), o desgaste do asfalto cresce exponencialmente com o peso por eixo. Um veículo de 2 toneladas causa aproximadamente 16 vezes mais dano que um carro de 1 tonelada, considerando a chamada lei da quarta potência aplicada em cálculos de pavimentação.
A proposta argumenta que o sistema atual penaliza injustamente proprietários de carros populares. Um Fiat Argo 1.0 de R$ 75 mil paga hoje R$ 3 mil de IPVA em São Paulo (4% de alíquota), enquanto um BMW X5 de R$ 500 mil paga R$ 20 mil. Proporcionalmente ao valor, ambos contribuem 4%. Quando medido pelo impacto na infraestrutura, o Argo (1.050 kg) causa dano mínimo, enquanto o X5 (2.250 kg) degrada o asfalto de forma muito mais acelerada. A PEC busca corrigir essa distorção, fazendo com que o peso seja o fator determinante da alíquota.
Críticos apontam que a mudança pode reduzir arrecadação estadual, especialmente em estados com frota concentrada em carros compactos. Segundo a Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (ANFAVEA), 62% dos carros vendidos no Brasil em 2023 foram hatches e sedãs com peso inferior a 1.200 kg. Se todos pagassem apenas 1% ou 2% de IPVA, a receita cairia significativamente em relação ao sistema atual que cobra 4% sobre o valor venal independentemente do peso.
Tramitação da PEC e prazos para eventual implementação
A aprovação na CCJ representa apenas o primeiro passo de uma tramitação longa. PECs exigem votação em dois turnos na Câmara dos Deputados, com aprovação de pelo menos 308 votos (três quintos dos 513 deputados) em cada turno. Depois, o texto segue para o Senado Federal, onde passa por duas votações com exigência de 49 votos (três quintos dos 81 senadores) em cada turno. O processo completo costuma levar de 12 a 24 meses quando há consenso político, mas pode se arrastar por anos em temas polêmicos.
Caso a PEC seja promulgada, os estados teriam prazo de até 90 dias para adequar suas legislações estaduais. O IPVA é tributo de competência estadual conforme artigo 155 da Constituição Federal, portanto cada unidade da federação precisaria editar lei específica implementando as novas alíquotas baseadas em peso. O texto da PEC 268/2024 estabelece que a mudança valeria a partir do exercício fiscal seguinte à promulgação, ou seja, se aprovada em 2024, os novos valores começariam a valer apenas em 2025.
Assembleias legislativas estaduais teriam trabalho considerável pela frente. Seria necessário criar tabelas de peso para todos os modelos comercializados no Brasil, cruzando dados do Registro Nacional de Veículos Automotores (RENAVAM) com especificações técnicas dos fabricantes. Estados como São Paulo, que arrecadaram R$ 26,8 bilhões com IPVA em 2023 segundo a Secretaria da Fazenda estadual, precisariam recalcular projeções de receita e ajustar orçamentos caso a mudança reduza arrecadação.
Impacto no mercado automotivo e comportamento de compra
A eventual aprovação da PEC pode alterar preferências de consumo no médio prazo. Compradores sensíveis a custo total de propriedade dariam peso maior (sem trocadilho) ao fator quilos na hora de escolher entre modelos. Um Jeep Renegade (1.430 kg) pagaria 2% de IPVA, cerca de R$ 2.800 sobre R$ 140 mil. O Jeep Compass (1.650 kg) subiria para 3%, resultando em R$ 5.100 sobre R$ 170 mil. A diferença de R$ 2.300 anuais apenas em IPVA pode influenciar quem está decidindo entre os dois modelos.
Fabricantes de veículos premium enfrentariam pressão para reduzir peso sem comprometer segurança e conforto. Tecnologias como alumínio na carroceria, fibra de carbono em componentes estruturais e baterias de alta densidade energética se tornariam mais atraentes comercialmente. O Audi A3 Sedan (1.395 kg) pagaria 2%, enquanto o Audi A4 (1.650 kg) subiria para 3%. Consumidores poderiam optar pelo modelo menor não apenas pelo preço de compra, mas também pela economia tributária ao longo dos anos.
Picapes e SUVs de trabalho enfrentariam aumento de custo operacional. Produtores rurais que utilizam Toyota Hilux (2.100 kg) ou Mitsubishi L200 (2.080 kg) veriam o IPVA subir para 4% sobre o valor venal. Considerando que muitos desses veículos são adquiridos por empresas e utilizados como ferramenta de trabalho, o custo adicional seria repassado para a cadeia produtiva. Associações do agronegócio já manifestaram preocupação com o potencial impacto da PEC caso ela avance no Congresso.
Veículos elétricos e a questão do peso das baterias
A transição para eletrificação traz complicador adicional. Baterias de íon de lítio são pesadas: um pack de 60 kWh pesa entre 400 kg e 500 kg. O Chevrolet Bolt EV (1.616 kg) pagaria 3% de IPVA sob a nova regra, cerca de R$ 4.200 sobre R$ 140 mil. O BYD Dolphin (1.750 kg) ficaria na mesma faixa com R$ 4.500 sobre R$ 150 mil. Carros elétricos, que hoje recebem isenção ou desconto de IPVA em diversos estados como incentivo à eletrificação, perderiam competitividade tributária se a PEC for aprovada sem ressalvas.
O Porsche Taycan (2.295 kg) cairia na alíquota máxima de 4%, resultando em IPVA de R$ 32 mil sobre R$ 800 mil. O Mercedes-Benz EQE (2.245 kg) pagaria R$ 24 mil sobre R$ 600 mil. Veículos elétricos premium, que já custam mais caro que equivalentes a combustão, teriam desvantagem adicional no custo anual de propriedade. A indústria automotiva pediu ao Congresso que a PEC inclua fator de correção para veículos de propulsão elétrica, descontando o peso da bateria do cálculo da alíquota.
Perguntas frequentes sobre a mudança no IPVA baseado em peso
Quando a mudança do IPVA por peso entra em vigor?
A PEC 268/2024 ainda precisa ser aprovada em dois turnos na Câmara e dois no Senado. Se promulgada em 2024, os estados teriam até 90 dias para adequar legislações estaduais, e as novas alíquotas valeriam a partir de janeiro de 2025. O processo completo pode levar de 12 a 24 meses.
Carros elétricos pagam IPVA mais alto por causa do peso da bateria?
Sim, pela redação atual da PEC. O peso total do veículo determina a alíquota, incluindo bateria. Um elétrico de 1.750 kg pagaria 3% de IPVA. Fabricantes pedem que o peso da bateria seja descontado do cálculo, mas a proposta ainda não prevê essa exceção.
Picapes de trabalho pagam mais IPVA com a nova regra?
Sim. Picapes como Ford Ranger, Toyota Hilux e Chevrolet S10 pesam acima de 2.000 kg e cairiam na alíquota máxima de 4%. Produtores rurais e empresas que usam esses veículos como ferramenta de trabalho teriam aumento no custo operacional anual.
Como saber o peso exato do meu carro para calcular o novo IPVA?
O peso em ordem de marcha (com tanque cheio e motorista) consta no manual do proprietário e no certificado de registro do veículo (CRV). Fabricantes também disponibilizam a informação em sites oficiais. Estados teriam que criar tabelas oficiais cruzando dados do RENAVAM com especificações técnicas.
Estados podem manter o sistema atual de IPVA mesmo com a PEC aprovada?
Não. PEC altera a Constituição Federal e tem aplicação obrigatória em todo território nacional. Estados perderiam autonomia para definir alíquotas e teriam que seguir as quatro faixas de peso estabelecidas no texto: 1%, 2%, 3% e 4% conforme peso do veículo.
SUVs compactos pagam mais ou menos que o sistema atual?
Depende do peso específico. Um Chevrolet Tracker (1.380 kg) pagaria 2%, provavelmente menos que os 4% atuais em São Paulo. Um Jeep Compass (1.650 kg) pagaria 3%, ainda com economia. SUVs acima de 2.000 kg como SW4 pagariam a alíquota máxima de 4%, igual ao sistema atual em SP mas potencialmente mais caro em estados que hoje cobram menos.
Proprietários de veículos devem acompanhar a tramitação da PEC 268/2024 nos próximos meses. A proposta ainda enfrenta longo caminho no Congresso, mas representa mudança estrutural na forma como o Brasil tributa veículos. Quem planeja comprar carro novo em 2024 ou 2025 pode considerar o peso como fator adicional na decisão, especialmente se a PEC avançar rapidamente nas votações. Consulte a tabela FIPE atualizada e as especificações técnicas do fabricante antes de fechar negócio, porque o custo total de propriedade pode mudar significativamente caso a cobrança de IPVA passe a considerar quilos em vez de apenas valor de mercado.








