A Ford e Geely produzirão e desenvolverão carros elétricos em parceria na Espanha, aproveitando o complexo industrial de Valência que durante décadas fabricou modelos icônicos como Ka e Fiesta. O acordo coloca a chinesa Geely no comando da operação fabril enquanto a Ford ganha acesso direto à plataforma e tecnologia de eletrificação da parceira asiática, movimento que redefine a estratégia da americana no mercado europeu de veículos eletrificados.
O anúncio acontece em momento crítico para a Ford na Europa, região onde a montadora enfrenta pressão regulatória crescente para eletrificar sua linha e custos operacionais elevados. A fábrica de Valência, inaugurada em 1976 e responsável por mais de 13 milhões de unidades ao longo da história, estava com futuro incerto após o fim da produção do Fiesta em 2023. Agora, a planta ganha nova vida com foco exclusivo em elétricos.
Como funciona a parceria entre Ford e Geely na Espanha
O acordo prevê que a Geely assume controle majoritário da produção no complexo de Valência, com investimento estimado em €2,5 bilhões para adaptação das linhas e desenvolvimento de novos modelos. A Ford mantém participação minoritária na operação e, o mais importante, garante acesso à arquitetura SEA (Sustainable Experience Architecture), plataforma modular da Geely projetada especificamente para veículos elétricos.
Na prática, isso significa que a Ford poderá desenvolver seus próprios modelos elétricos usando a base técnica da Geely, cortando anos de desenvolvimento e bilhões em investimento que seriam necessários para criar uma plataforma do zero. A americana já utiliza a mesma estratégia com a Volkswagen na Europa, onde compartilha a plataforma MEB para produzir veículos comerciais elétricos.
A parceria permite que a Ford acelere sua eletrificação na Europa sem comprometer capital em nova infraestrutura de produção, enquanto a Geely ganha presença industrial no continente europeu com custos diluídos.
O modelo de negócio segue tendência crescente na indústria automotiva global: compartilhamento de plataformas e produção conjunta para diluir os custos astronômicos da transição elétrica. Stellantis faz isso internamente com suas 14 marcas, Renault-Nissan-Mitsubishi mantém aliança para compartilhar componentes, e agora Ford aprofunda parcerias tanto com Volkswagen quanto com Geely.
Estrutura de produção e capacidade instalada
A fábrica de Valência tem capacidade atual para 200 mil unidades anuais em dois turnos completos. Com os investimentos previstos, a Geely planeja elevar esse número para 250 mil unidades até 2027, quando a produção dos dois primeiros modelos elétricos deve atingir ritmo de cruzeiro. A planta ocupa 2,8 milhões de m² e emprega cerca de 4.500 trabalhadores diretos, número que deve ser mantido com a nova configuração.
O complexo conta com:
- Estamparia própria com capacidade para 300 mil conjuntos de peças por ano
- Linha de soldagem robotizada com 450 robôs, que será adaptada para as estruturas em alumínio dos elétricos
- Pintura com tecnologia de baixa emissão já adequada aos padrões europeus mais restritivos
- Montagem final flexível capaz de alternar entre diferentes modelos na mesma linha
- Centro de testes com pista de 3,2 km e câmaras climáticas
A adaptação mais significativa será na área de montagem do trem de força, que precisará acomodar baterias de grande capacidade e motores elétricos em vez dos tradicionais conjuntos mecânicos. A Geely deve instalar nova linha dedicada exclusivamente para integração de pacotes de bateria, seguindo o padrão já utilizado em suas fábricas na China.
Modelos elétricos previstos para produção em Valência
O primeiro veículo confirmado é o Geely EX5, SUV compacto elétrico que compete diretamente com Volkswagen ID.4, Tesla Model Y e Hyundai Ioniq 5 no mercado europeu. O modelo usa a plataforma SEA com bateria de 61,5 kWh ou 83 kWh, autonomia de até 530 km no ciclo WLTP e motor de 218 cv na versão de entrada.
O EX5 já está em produção na China desde 2023 e chegou ao mercado europeu via importação em volumes limitados. Com a produção local na Espanha, a Geely evita a tarifa de importação de 10% sobre veículos vindos da China e reduz custos logísticos, permitindo preço mais competitivo. A expectativa é que o modelo produzido em Valência custe entre €35.000 e €42.000 dependendo da versão, posicionamento agressivo para o segmento.
Segundo modelo elétrico em desenvolvimento
O segundo veículo ainda não foi oficialmente revelado, mas fontes da indústria indicam que será um SUV médio com sete lugares, segmento em crescimento acelerado na Europa. A base técnica seria a mesma plataforma SEA do EX5, mas com distância entre eixos estendida para acomodar a terceira fileira de bancos e bateria de maior capacidade.
Esse modelo disputaria espaço com Kia EV9, Volkswagen ID.Buzz e os futuros elétricos de sete lugares que Peugeot e Citroën devem lançar até 2026. A produção está prevista para começar no segundo semestre de 2026, seis meses após o início da fabricação do EX5 em Valência.
Há especulação de que a Ford possa desenvolver sua própria versão desse SUV médio usando a plataforma compartilhada, criando um modelo com identidade visual da marca americana mas mecânica Geely por baixo. Seria estratégia similar ao que a montadora faz com a Transit Custom elétrica, que usa plataforma Volkswagen mas carrega design e acabamento Ford.
Acesso da Ford à tecnologia e plataforma Geely
O grande trunfo da Ford neste acordo não é a produção em si, mas o acesso irrestrito à plataforma SEA e ao banco de tecnologias de eletrificação da Geely. A arquitetura SEA é considerada uma das mais avançadas da indústria, projetada do zero para veículos elétricos sem compromissos com motores a combustão.
Principais características técnicas da plataforma SEA:
- Distância entre eixos variável de 1,8m a 3,3m, permitindo desde compactos até SUVs grandes
- Arquitetura elétrica de 800V que possibilita recarga ultrarrápida de 10% a 80% em 18 minutos
- Baterias com química NMC ou LFP conforme estratégia de custo e autonomia
- Motores elétricos de 150 cv a 544 cv em configurações de tração simples ou integral
- Sistema de gerenciamento térmico integrado que otimiza autonomia em condições extremas
- Preparação para condução autônoma nível 4 com hardware embarcado
A Ford poderá adaptar essa base para criar veículos com sua identidade, processo que leva entre 24 e 30 meses do conceito inicial até produção em série. Isso é significativamente mais rápido que os 48 a 60 meses necessários para desenvolver plataforma própria, e o custo cai de cerca de US$ 2 bilhões para algo entre US$ 300 milhões e US$ 500 milhões.
Transferência de conhecimento e engenharia conjunta
O acordo prevê que equipes de engenharia da Ford e Geely trabalhem lado a lado no centro técnico de Valência, que será expandido para acomodar 800 engenheiros dedicados ao desenvolvimento de novos modelos elétricos. A Ford contribui com expertise em dinâmica veicular, calibração de direção e suspensão, áreas onde a americana tem décadas de experiência reconhecida.
A Geely, por sua vez, lidera nas áreas de gerenciamento de bateria, eficiência energética e integração de sistemas eletrônicos, tecnologias onde as montadoras chinesas avançaram rapidamente nos últimos cinco anos. Essa troca de conhecimento beneficia ambos os lados e acelera a curva de aprendizado.
Vale notar que a Geely não é novata em parcerias com ocidentais: a chinesa controla a Volvo desde 2010, possui 9,7% da Daimler (Mercedes-Benz) e tem joint venture com a Renault para produção de motores híbridos na Coreia do Sul. A experiência acumulada nessas operações facilita a integração com a Ford.
Impacto no mercado europeu de veículos elétricos
A entrada da Geely com produção local na Europa acontece em momento estratégico. A União Europeia estabeleceu que 100% dos carros novos vendidos a partir de 2035 devem ser zero emissão, o que na prática significa elétricos a bateria ou hidrogênio. Montadoras que não eletrificarem suas linhas enfrentarão multas pesadas ou simplesmente não poderão vender.
O mercado de elétricos na Europa cresceu 13,9% em 2023 comparado a 2022, atingindo 2,3 milhões de unidades, segundo dados da ACEA (Associação Europeia de Fabricantes de Automóveis). A expectativa é que esse número chegue a 4 milhões em 2025 e supere 7 milhões em 2030. A Geely quer fatia significativa desse bolo.
Com produção local, a Geely evita as tarifas de importação e possíveis sobretaxas que a União Europeia estuda aplicar sobre elétricos chineses, acusados de receber subsídios governamentais que distorcem a concorrência.
A Ford, por sua vez, ganha fôlego para cumprir suas metas de eletrificação na Europa sem comprometer os lucros. A montadora anunciou em 2023 prejuízo operacional de US$ 1,8 bilhão em suas operações europeias, pressionada por custos de produção elevados e vendas fracas de modelos a combustão. A parceria com a Geely oferece caminho para reverter esse quadro.
Concorrência com outras montadoras chinesas
A Geely não é a única chinesa de olho na Europa. A BYD inaugurou fábrica na Hungria em 2024 com capacidade para 150 mil carros por ano, a Chery está negociando produção na Espanha, e a SAIC (dona da MG) estuda ampliar operações no continente. A corrida das montadoras chinesas para produzir localmente na Europa está apenas começando.
O diferencial da Geely é a parceria com player estabelecido como a Ford, que traz rede de concessionárias, conhecimento do consumidor europeu e marca reconhecida. As chinesas que tentam entrar sozinhas enfrentam desafio maior para construir reputação e canais de venda do zero.
Cronograma de implementação e próximos passos
A adaptação da fábrica de Valência começou no primeiro trimestre de 2024 e deve levar 18 meses até a linha estar pronta para produção em série. O cronograma previsto é:
- Primeiro semestre de 2024: retrofit das linhas de soldagem e pintura para novos processos
- Segundo semestre de 2024: instalação da linha de integração de baterias e testes de pré-produção
- Primeiro trimestre de 2025: início da produção piloto do Geely EX5 com 50 unidades por dia
- Segundo trimestre de 2025: ramp-up para 500 unidades diárias e primeiras entregas a clientes
- Segundo semestre de 2026: início da produção do segundo modelo elétrico
- 2027: capacidade plena de 250 mil unidades anuais com dois modelos em linha
A Ford deve anunciar seus próprios modelos baseados na plataforma SEA somente em 2025, com produção prevista para 2027. A montadora ainda não confirmou se esses veículos serão fabricados em Valência junto com os modelos Geely ou em outra planta europeia.
O investimento total da Geely na operação espanhola é de €2,5 bilhões em cinco anos, dos quais €800 milhões vêm de incentivos do governo espanhol através do programa PERTE VEC (Projeto Estratégico para Recuperação e Transformação Econômica do Veículo Elétrico e Conectado). A Ford não divulgou o valor de sua participação minoritária no negócio.
Perguntas frequentes sobre a parceria Ford e Geely na Espanha
A Ford vai vender carros com marca Geely no Brasil?
Não há previsão para isso no curto prazo. A parceria Ford e Geely produzirão e desenvolverão carros elétricos em parceria na Espanha com foco no mercado europeu. O Brasil ainda não faz parte dos planos de exportação anunciados, embora a Ford possa eventualmente trazer modelos elétricos desenvolvidos nessa parceria para o mercado brasileiro se houver demanda e viabilidade econômica.
Os carros produzidos em Valência serão vendidos como Ford ou Geely?
Ambos. A fábrica produzirá modelos com marca Geely (como o EX5) e futuramente poderá fabricar veículos com marca Ford que usam a mesma plataforma técnica mas com design e acabamento próprios da americana. Cada marca manterá sua identidade visual e rede de distribuição separada.
Quanto vai custar o Geely EX5 produzido na Espanha?
A expectativa é que o preço fique entre €35.000 e €42.000 dependendo da versão e nível de equipamento. Isso o posiciona abaixo do Volkswagen ID.4 (que parte de €45.000) e próximo do MG4 elétrico (€31.000 a €38.000), tornando o modelo competitivo em preço sem ser o mais barato do segmento.
A fábrica de Valência vai exportar carros para outros países?
Sim. Além de atender o mercado espanhol, a planta exportará para toda a União Europeia, Reino Unido, Noruega e Suíça. Não há confirmação sobre exportação para mercados fora da Europa, embora tecnicamente a fábrica tenha capacidade para isso se houver demanda.
Essa parceria afeta a produção da Ford no Brasil?
Não diretamente. A operação brasileira da Ford continua focada em picapes e SUVs a combustão produzidos na Bahia, com a Ranger e futura geração do Territory. Se a Ford decidir trazer tecnologia elétrica da parceria com Geely para o Brasil, isso seria decisão futura e dependeria de viabilidade de mercado para elétricos por aqui.
Quando os primeiros carros elétricos dessa parceria chegam às concessionárias?
O Geely EX5 produzido em Valência deve começar a chegar às concessionárias europeias no segundo trimestre de 2025. Modelos Ford baseados na mesma plataforma só devem estar disponíveis em 2027, quando a montadora americana concluir o desenvolvimento de suas próprias versões com identidade visual Ford.

