O De Tomaso Pantera: superesportivo de motor V8 Ford e alma italiana nasceu de uma parceria improvável que deu certo. Quando o argentino naturalizado italiano Alessandro de Tomaso uniu forças com a Ford no início dos anos 1970, o resultado foi um carro que combinava design europeu refinado com a potência inconfundível dos motores V8 americanos. Produzido entre 1971 e 1993, o Pantera atravessou 23 anos no mercado, tornando-se um dos esportivos mais longevos e desejados de sua época.
A proposta era clara: entregar desempenho de superesportivo italiano com a confiabilidade e o custo de manutenção de um motor Ford. Na prática, o Pantera oferecia 330 cavalos de potência na versão inicial, aceleração de 0 a 100 km/h em 5,5 segundos e velocidade máxima de 260 km/h, números impressionantes para o início da década de 1970. Tudo isso por um preço que ficava abaixo dos rivais Ferrari e Lamborghini da época.
A Origem do Projeto e a Parceria com a Ford
Alessandro de Tomaso fundou sua marca em 1959, focado em carros de competição e esportivos de nicho. O empresário entendia que, para crescer, precisava de volume de produção e distribuição em escala. A Ford, por sua vez, buscava um esportivo exótico para suas concessionárias Lincoln-Mercury nos Estados Unidos, depois de desistir da compra da Ferrari em 1963.
O acordo firmado em 1970 garantia à De Tomaso o fornecimento de motores V8 Cleveland de 5,7 litros (351 polegadas cúbicas) e transmissões ZF de cinco marchas. Em troca, a Ford obtinha direitos de distribuição exclusiva no mercado americano. O design ficou a cargo do estúdio Ghia, que também pertencia a De Tomaso na época, com o americano Tom Tjaarda assinando as linhas do Pantera.
O motor Ford Cleveland 351 entregava 330 cv a 5.400 rpm e 45,7 kgfm de torque a 3.800 rpm na configuração original, números que colocavam o Pantera no mesmo patamar de desempenho de rivais italianos que custavam o dobro do preço.
A carroceria em aço estampado sobre chassi monobloco central de aço era diferente da abordagem tradicional italiana de tubulares espaciais. Essa escolha reduziu custos de produção e facilitou reparos, mas adicionou peso: o Pantera pesava 1.400 kg, cerca de 200 kg a mais que um Ferrari Dino 246 GT da mesma época.
Design Ghia: Linhas que Envelheceram Bem
Tom Tjaarda criou um design que equilibrava agressividade e elegância. A frente baixa com faróis retráteis, as laterais com entradas de ar funcionais atrás das portas e a traseira larga com quatro saídas de escapamento formavam um conjunto coeso. As proporções respeitavam o cânone dos superesportivos de motor central: capô curto, cabine deslocada para frente, grande área envidraçada traseira.
Detalhes práticos marcavam o projeto:
- Porta-malas frontal com 140 litros de capacidade, suficiente para bagagem de fim de semana
- Acesso ao motor por toda a tampa traseira basculante, facilitando manutenção
- Vidro traseiro com venezianas removíveis que ajudavam na ventilação do compartimento do motor
- Portas tipo tesoura nas versões especiais produzidas a partir de 1990
O interior combinava couro italiano com instrumentação Ford adaptada. O volante de três raios, os mostradores redondos e o console central largo criavam um ambiente esportivo sem excessos. A posição de dirigir era baixa, típica de carros de motor central, com boa visibilidade frontal mas limitada nas três quartos traseiras.
Evolução Visual ao Longo das Décadas
O Pantera manteve a silhueta original durante toda a produção, mas recebeu atualizações visuais. A versão L de 1972 trouxe para-choques maiores para atender normas americanas. A GTS de 1973 adicionou alargadores de para-lamas e spoiler traseiro. As versões GT5 e GT5-S dos anos 1980 exageraram nas proporções com para-lamas alargados que acomodavam rodas de até 13 polegadas de largura, visual que dividia opiniões mas garantia presença de pista.
Mecânica Ford: Força Bruta Acessível
O coração do Pantera era o motor Ford Cleveland 351, um V8 de bloco de ferro fundido e cabeçotes de alumínio. A configuração com válvulas grandes e dutos de admissão generosos priorizava potência em altas rotações, característica incomum em motores americanos da época. O câmbio ZF de cinco marchas, o mesmo usado em Ferraris e Maseratis, transmitia a força para as rodas traseiras.
Especificações técnicas da versão inicial (1971-1974):
- Motor: V8 Ford Cleveland 351 (5.763 cm³)
- Potência: 330 cv a 5.400 rpm
- Torque: 45,7 kgfm a 3.800 rpm
- Transmissão: manual de 5 marchas ZF
- Peso: 1.400 kg
- Relação peso/potência: 4,2 kg/cv
- 0-100 km/h: 5,5 segundos
- Velocidade máxima: 260 km/h
A suspensão independente nas quatro rodas usava braços duplos triangulares, molas helicoidais e amortecedores telescópicos. Freios a disco ventilados nas quatro rodas garantiam poder de parada compatível com o desempenho. A direção sem assistência exigia força em manobras, mas oferecia comunicação direta com o asfalto em velocidade.
Consumo e Manutenção no Mundo Real
O motor V8 americano bebia combustível sem cerimônia: médias de 5 a 7 km/l em uso misto eram comuns, caindo para 3 a 4 km/l quando explorado. A vantagem estava na simplicidade mecânica. Peças de motor, transmissão e suspensão podiam ser encontradas em concessionárias Ford ou em lojas de peças americanas, ao contrário dos rivais italianos que exigiam importação cara e demorada.
Revisões seguiam intervalos de 5.000 km para óleo e filtros, com ajustes de válvulas a cada 15.000 km. O custo de manutenção preventiva ficava próximo ao de um Mustang da mesma época, fração do que se gastava com um Ferrari Daytona. Problemas recorrentes incluíam superaquecimento em trânsito lento, corrosão nas caixas de roda e desgaste prematuro das buchas de suspensão.
Versões Especiais e Evolução ao Longo de 23 Anos
O Pantera atravessou duas décadas com atualizações que acompanharam mudanças no mercado e na regulamentação. A produção pode ser dividida em três fases principais, cada uma com características distintas.
Fase Ford (1971-1974)
Período de distribuição oficial pela rede Lincoln-Mercury nos Estados Unidos. Cerca de 5.500 unidades foram produzidas, a maioria exportada para território americano. A versão L de 1972 trouxe melhorias em acabamento e isolamento acústico. Em 1974, a Ford encerrou a parceria devido a problemas de qualidade de montagem e recalls frequentes, além da crise do petróleo que reduziu o apetite por carros de alto consumo.
Fase Independente (1974-1990)
De Tomaso continuou produzindo o Pantera de forma independente, em volumes baixos. A versão GTS ganhou visual mais agressivo. Em 1980, a GT5 chegou com para-lamas alargados, rodas de 13 polegadas e motor preparado com até 360 cv. A GT5-S de 1985 refinou o pacote com spoilers maiores e melhorias aerodinâmicas. A produção artesanal resultava em carros com variações individuais significativas.
Fase Final (1990-1993)
As últimas unidades receberam a designação Si (Sport Iniezione), com injeção eletrônica de combustível substituindo os carburadores. Portas tipo tesoura opcionais e interior retrabalhado marcaram as versões de despedida. A produção total ao longo de 23 anos ficou entre 7.200 e 7.500 unidades, números exatos são difíceis de confirmar pela produção artesanal dos últimos anos.
Pantera no Brasil: Raridade Absoluta
O De Tomaso Pantera nunca foi oficialmente importado para o Brasil. A barreira alfandegária da época tornava a importação de carros esportivos praticamente impossível para pessoas físicas. Estima-se que entre três e cinco unidades tenham chegado ao país em diferentes momentos, algumas por vias diplomáticas, outras em importações posteriores à abertura do mercado nos anos 1990.
O mercado de clássicos brasileiro registra aparições esporádicas de Panteras em leilões e coleções particulares. Valores praticados ficam entre R$ 800 mil e R$ 1,5 milhão para exemplares em bom estado, dependendo do ano, versão e documentação. A manutenção exige mecânico especializado em carros antigos e familiarizado com motores Ford V8, perfil raro mas existente em oficinas dedicadas a muscle cars americanos.
No mercado internacional, um Pantera L dos anos 1970 em condição original custa entre US$ 80 mil e US$ 120 mil. Versões GT5 e GT5-S bem preservadas ultrapassam US$ 200 mil, enquanto exemplares raros como o Pantera Si podem chegar a US$ 300 mil.
Legado e Posição entre os Clássicos
O Pantera ocupa posição única na história dos esportivos. Não alcançou o status de ícone absoluto como Ferrari 308 ou Lamborghini Countach, mas conquistou base de fãs leais pela combinação de design italiano e mecânica americana. A longevidade de 23 anos de produção superou a maioria dos rivais da época.
Pontos que definem o legado do modelo:
- Desempenho acessível: entregava números de superesportivo por fração do preço dos rivais italianos puros
- Manutenção viável: peças Ford facilitavam a vida de proprietários fora da Europa
- Design atemporal: as linhas Ghia envelheceram melhor que muitos contemporâneos
- Exclusividade moderada: produção limitada sem ser inviável de encontrar
O carro ganhou fama pop quando Elvis Presley comprou um Pantera em 1974 e, segundo a lenda, atirou contra o painel quando o motor falhou em dar partida. O episódio, verdadeiro ou não, ilustra a relação amor e ódio que alguns proprietários desenvolveram com o modelo: paixão pelo visual e desempenho, frustração com problemas de confiabilidade das primeiras séries.
Clubes de proprietários existem nos Estados Unidos, Europa e até no Brasil, onde entusiastas se reúnem virtualmente para trocar informações sobre restauração e manutenção. O mercado de peças de reposição permanece ativo, com fornecedores especializados oferecendo desde itens de motor até componentes de carroceria reproduzidos.
Perguntas Frequentes sobre o De Tomaso Pantera
Quantos cavalos tem o motor V8 Ford do Pantera?
O motor Ford Cleveland 351 entregava 330 cv a 5.400 rpm na configuração original de 1971. Versões posteriores como a GT5 chegaram a 360 cv com preparações de fábrica. A potência real variava conforme o ano e mercado de destino, com versões americanas pós-1972 tendo números menores por conta de controles de emissões.
O De Tomaso Pantera é confiável para uso regular?
A confiabilidade depende do ano e do histórico de manutenção. O motor Ford é robusto quando bem cuidado, mas o carro sofre com superaquecimento em trânsito lento e problemas elétricos. Exemplares restaurados com sistemas de arrefecimento modernizados podem ser usados regularmente, mas exigem atenção constante e não são indicados como transporte diário.
Qual a diferença entre Pantera L, GTS e GT5?
O Pantera L (1972-1974) era a versão de luxo com melhor acabamento. A GTS (1973-1974) adicionou elementos aerodinâmicos e visuais esportivos. A GT5 (1980-1990) trouxe para-lamas alargados, rodas maiores e motor mais potente. Cada evolução aumentava desempenho e presença visual, mas também peso e complexidade.
É possível importar um Pantera para o Brasil hoje?
Sim, carros com mais de 30 anos podem ser importados como clássicos. O processo envolve despachante especializado, pagamento de impostos de importação (que variam conforme avaliação) e emplacamento como veículo de coleção no DETRAN. O custo total da operação adiciona 50% a 80% sobre o valor pago no exterior, sem contar transporte e seguro.
Qual o consumo médio de combustível do Pantera?
O V8 de 5,7 litros consome entre 5 e 7 km/l em uso misto, podendo cair para 3 a 4 km/l em condução esportiva. Rodovias em velocidade constante permitem atingir 8 a 9 km/l. O tanque de 75 litros garante autonomia de 375 a 525 km dependendo do estilo de pilotagem.
Quanto custa manter um De Tomaso Pantera no Brasil?
Revisões preventivas custam entre R$ 3 mil e R$ 5 mil a cada 5.000 km em oficinas especializadas. Peças de motor Ford são relativamente acessíveis, mas componentes de carroceria e suspensão específicos do Pantera exigem importação. Seguro para colecionáveis fica entre R$ 8 mil e R$ 15 mil anuais, dependendo da apólice e valor segurado. IPVA varia por estado, mas carros com mais de 30 anos têm isenção em vários deles.
Para quem busca um superesportivo clássico com personalidade única e custos de manutenção mais controlados que rivais italianos puros, o De Tomaso Pantera permanece opção válida no mercado de colecionáveis. A combinação de design Ghia e força Ford criou um carro que atravessou décadas mantendo relevância, mesmo sem alcançar o status de lenda absoluta dos rivais de Maranello e Sant’Agata Bolognese.








