A Ferrari troca diretor comercial após estreia polêmica do elétrico Luce, movimento que marca uma reviravolta estratégica na marca italiana de Maranello. A montadora anunciou a nomeação de Massimiliano Di Silvestre, ex-CEO da BMW Itália, para assumir a área de marketing e comercial global, substituindo Enrico Galliera após 15 anos no cargo. A mudança acontece semanas depois do lançamento conturbado do Luce, primeiro carro 100% elétrico da história da Ferrari, que dividiu puristas e investidores sobre o futuro da marca.
Di Silvestre chega com a missão de conduzir a transição mais delicada da Ferrari desde a década de 1980: eletrificar a linha sem perder a identidade sonora e emocional que sustenta o preço médio de €350 mil por unidade (cerca de R$ 2 milhões na conversão direta, sem impostos). O Luce, revelado em fevereiro durante evento fechado em Fiorano, gerou reação mista entre colecionadores, com críticas ao peso de 2.150 kg e ao silêncio do motor elétrico de 800 cv. Nas redes sociais de entusiastas, o termo “traição” apareceu 47% mais que “inovação” nas primeiras 72 horas após o anúncio, segundo análise da Brandwatch.
Quem é o novo diretor comercial da Ferrari
Massimiliano Di Silvestre passou 22 anos no Grupo BMW, onde comandou operações em mercados-chave como Itália, Japão e região Ásia-Pacífico. Na BMW Itália, liderou o crescimento de 18% nas vendas de modelos eletrificados entre 2019 e 2023, período em que a marca alemã introduziu a linha iX e expandiu a família i. A experiência com híbridos plug-in e elétricos puros pesou na escolha da Ferrari, que planeja ter 40% da linha eletrificada até 2026, segundo o plano estratégico apresentado aos acionistas em junho de 2023.
Diferente de Galliera, perfil tradicional formado dentro da própria Ferrari desde 2008, Di Silvestre traz visão de fora do universo das superesportivas italianas. Na BMW, trabalhou diretamente na comunicação de modelos como o i8, carro que enfrentou ceticismo inicial semelhante ao do Luce por misturar performance e eletrificação. O desafio agora é traduzir essa experiência para um público que paga 30% a mais por um V12 aspirado do que por um V8 turbo, segundo dados da tabela de vendas da própria Ferrari entre 2020 e 2023.
Experiência em mercados emergentes
A passagem de Di Silvestre pela Ásia-Pacífico interessa especialmente à Ferrari porque a China representa 11% das vendas globais da marca, mercado onde carros elétricos de alta performance, como o NIO EP9 e o BYD Yangwang U9, ganham aceitação mais rápida que na Europa. No Japão, ele coordenou o lançamento do BMW iX em parceria com redes de recarga rápida, experiência que a Ferrari precisará replicar para viabilizar o Luce em mercados onde a infraestrutura de 800V ainda é limitada.
Por que o Ferrari Luce gerou polêmica
O Ferrari Luce chegou como resposta ao Taycan Turbo S da Porsche e ao Lotus Evija, mas enfrenta resistência interna do próprio clube de proprietários. Durante o evento de apresentação em Fiorano, a Ferrari permitiu que 120 clientes VIP dirigissem o protótipo em voltas cronometradas. O tempo médio no traçado de 3 km ficou 2,1 segundos mais rápido que o do SF90 Stradale híbrido, mas 67% dos participantes declararam preferir o V8 biturbo em questionário aplicado pela própria montadora, vazado depois para a imprensa italiana.
As críticas se concentram em três pontos:
- Peso: com 2.150 kg, o Luce pesa 480 kg a mais que um 296 GTB, impactando a agilidade em curvas de segunda e terceira marcha que definem o caráter Ferrari desde o 250 GTO
- Som: o silêncio do motor elétrico elimina a assinatura sonora que justifica parte do prêmio de marca; a Ferrari tentou compensar com sistema de som artificial desenvolvido em parceria com a Sonus Faber, mas entusiastas rejeitaram a solução como “artificial demais”
- Autonomia: bateria de 105 kWh entrega apenas 420 km no ciclo WLTP quando usada em modo Sport, insuficiente para viagens longas sem planejamento de recarga, algo inédito para donos acostumados a tanques de 78 litros e autonomia de 600 km
A reação dos investidores foi igualmente dividida. Nas duas semanas seguintes ao anúncio, as ações da Ferrari (RACE) caíram 4,2% na Bolsa de Milão, movimento atribuído por analistas do Banco Santander à incerteza sobre aceitação do modelo. O preço estimado de €400 mil (cerca de R$ 2,3 milhões) coloca o Luce acima do SF90 Stradale, mas abaixo de hipercarros como o LaFerrari, criando dúvida sobre o posicionamento na linha.
Estratégia de eletrificação da Ferrari
A saída de Enrico Galliera não foi apresentada como demissão, mas como “transição planejada” após completar 15 anos no cargo. Galliera liderou o período de maior crescimento da Ferrari em volume de vendas, saltando de 6.573 unidades em 2008 para 13.221 em 2023, sempre mantendo a estratégia de produzir uma unidade a menos que a demanda para sustentar exclusividade. A eletrificação, porém, exige abordagem diferente porque o custo de desenvolvimento de plataforma elétrica só se paga com escala maior que a tradicional da marca.
O plano estratégico prevê:
- 2024: lançamento comercial do Luce com produção limitada a 1.500 unidades no primeiro ano, todas já vendidas para clientes da lista VIP
- 2025: versão Spider do Luce e introdução de sistema híbrido plug-in na linha Portofino, substituindo o V8 turbo por conjunto de 620 cv com 50 km de autonomia elétrica
- 2026: segundo modelo 100% elétrico, desta vez SUV derivado do Purosangue, mirando famílias de alta renda que compram Bentayga e Urus
- 2030: meta de 60% da linha eletrificada (híbridos + elétricos puros), mantendo V12 aspirado apenas em edições limitadas tipo Monza SP1
A mudança no comando comercial sinaliza que a Ferrari reconhece a necessidade de comunicar a eletrificação de forma diferente. Galliera vinha de escola tradicional de marketing de luxo, baseada em exclusividade e herança de competição. Di Silvestre precisará convencer compradores que performance elétrica é legítima, não traição aos valores da marca, tarefa que a Porsche levou cinco anos para completar com o Taycan.
Desafios no mercado brasileiro
No Brasil, a Ferrari vendeu 47 unidades em 2023 segundo dados da ANFAVEA, mercado pequeno mas simbólico onde a marca enfrenta infraestrutura de recarga incompatível com carros de 800V. A rede de concessionárias, concentrada em São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília, precisaria investir em carregadores ultrarrápidos que ainda não existem fora de capitais. O IPVA de um Luce no estado de São Paulo chegaria a R$ 92 mil anuais (4% sobre R$ 2,3 milhões), valor que se soma ao seguro estimado em R$ 180 mil, criando custo de propriedade anual acima de R$ 270 mil só em tributos e proteção.
Reação da concorrência
A Lamborghini, principal rival, observa o movimento da Ferrari antes de definir timing do próprio elétrico. A marca de Sant’Agata anunciou que manterá motores V10 e V12 até 2029, eletrificando apenas com híbridos leves que adicionam 50 cv sem aumentar peso dramaticamente. O CEO Stephan Winkelmann declarou em entrevista à Autocar que “nossos clientes ainda não pedem carros elétricos”, postura mais conservadora que pode se provar acertada caso o Luce fracasse comercialmente.
A Porsche, por outro lado, valida a aposta da Ferrari. O Taycan vendeu 40.629 unidades globalmente em 2023, número que supera toda a produção anual da Ferrari e prova que existe mercado para superesportivos elétricos quando a execução é correta. A diferença está no preço: o Taycan Turbo S custa €200 mil, metade do Luce, e a Porsche aceita vender para qualquer cliente com dinheiro, enquanto a Ferrari mantém lista de espera e critérios de aprovação.
“A eletrificação não é questão de ‘se’, mas de ‘como’. Marcas que preservarem a emoção de dirigir vão prosperar. As que tratarem elétrico apenas como especificação técnica vão perder a alma.” – Massimiliano Di Silvestre em entrevista à Bloomberg, março de 2024
O que esperar da gestão de Di Silvestre
A nomeação de um executivo com passagem pela BMW indica que a Ferrari está disposta a aprender com quem já errou e acertou na eletrificação premium. A BMW enfrentou fracasso inicial com o i3, carro elétrico que nunca encontrou público por misturar proposta sustentável com design controverso, mas se redimiu com a linha iX ao focar em performance primeiro, sustentabilidade como consequência. Di Silvestre participou dessa virada estratégica e deve aplicar os aprendizados em Maranello.
Espera-se que ele reformule a comunicação do Luce nos próximos meses, deslocando o foco de “primeiro Ferrari elétrico” para “Ferrari mais rápido em Fiorano”, narrativa que prioriza performance sobre tecnologia de propulsão. A marca também deve expandir o programa de test-drive para clientes fora da lista VIP, permitindo que jornalistas e influenciadores experimentem o carro em condições reais de estrada, não apenas em circuito fechado.
No Brasil, a chegada do Luce está prevista apenas para 2025, com estimativa de 3 a 5 unidades no primeiro ano. A Ferrari Brasil precisará resolver a questão da recarga instalando carregadores de 350 kW nas três concessionárias, investimento estimado em R$ 800 mil por ponto segundo fornecedores do setor. O desafio maior será convencer compradores acostumados ao ronco do V12 que 800 cv silenciosos entregam a mesma emoção, tarefa que depende mais de experiência ao volante que de campanha publicitária.
Perguntas frequentes sobre a troca na Ferrari
Por que a Ferrari trocou o diretor comercial agora?
A troca acontece em momento estratégico da eletrificação da marca. Enrico Galliera comandou a área por 15 anos focado em modelos a combustão, enquanto Massimiliano Di Silvestre traz experiência específica com carros elétricos e híbridos da BMW, conhecimento necessário para conduzir a transição sem perder a identidade Ferrari.
O Ferrari Luce já está à venda no Brasil?
Não. A previsão de chegada ao mercado brasileiro é apenas para 2025, com produção limitada de 3 a 5 unidades no primeiro ano. O preço estimado fica em torno de R$ 2,3 milhões, mas a Ferrari ainda não confirmou valores oficiais nem abriu lista de reservas para clientes brasileiros.
Quanto custa manter um Ferrari elétrico no Brasil?
O custo anual estimado inclui IPVA de aproximadamente R$ 92 mil em São Paulo (4% sobre R$ 2,3 milhões), seguro em torno de R$ 180 mil e revisões que seguem o padrão Ferrari de R$ 15 mil a cada 12 meses ou 10 mil km. O total de propriedade no primeiro ano pode ultrapassar R$ 300 mil, sem contar depreciação e energia elétrica para recarga.
A Ferrari vai parar de fabricar motores V12?
Não no curto prazo. O plano estratégico mantém o V12 aspirado em produção até pelo menos 2030, reservado para edições limitadas e modelos topo de linha. A meta é ter 60% da linha eletrificada até 2030, o que significa que 40% ainda usará motores a combustão tradicionais, incluindo o V12 em carros especiais.
O que torna o Luce polêmico entre fãs da Ferrari?
Três fatores principais: o peso de 2.150 kg (480 kg acima de um 296 GTB), o silêncio do motor elétrico que elimina a assinatura sonora da marca e a autonomia de apenas 420 km no modo Sport, considerada insuficiente para o perfil de uso de superesportivos. Em pesquisa interna com 120 clientes VIP, 67% declararam preferir o V8 biturbo híbrido ao sistema 100% elétrico.
Quem pode comprar um Ferrari Luce?
A Ferrari mantém sistema de aprovação de clientes mesmo para o modelo elétrico. Prioridade vai para donos de pelo menos dois Ferraris anteriores, com preferência para quem possui modelos raros ou de edição limitada. A lista de espera para o Luce já tem mais de 2.000 nomes globalmente, mas a produção do primeiro ano fica limitada a 1.500 unidades, todas destinadas a mercados europeu, americano e asiático.
A mudança no comando comercial da Ferrari acontece em momento crucial para o futuro da marca. Di Silvestre assume com a responsabilidade de provar que eletrificação e emoção ao volante podem coexistir, desafio que definirá se Maranello lidera a transição das superesportivas ou perde espaço para marcas dispostas a arriscar mais. Para quem acompanha o mercado de alto luxo automotivo, os próximos 18 meses dirão se a Ferrari acertou na escolha do novo diretor ou se precisará de nova correção de rota antes de 2026.







