A Jetour F700 PHEV é picape com 1.631 cv e porte de Ram 1500 que faz 71,9 km/l segundo os dados homologados na China. Sim, você leu certo: mil seiscentos e trinta e um cavalos de potência em uma caminhonete híbrida plug-in. E antes que você pense que é mais uma gracinha conceitual sem futuro, saiba que a Jetour — marca do grupo Chery — já confirmou a produção em série para 2026. A pergunta que não quer calar: isso é evolução tecnológica ou apenas mais um espetáculo de números chineses que desmoronam na hora da verdade?
Números que desafiam a física — ou a credibilidade
Vamos aos fatos. A Jetour F700 PHEV combina três motores elétricos com um propulsor a combustão interna. O resultado? Uma potência combinada de 1.200 kW, ou seja, 1.631 cv. O torque declarado chega a 2.600 Nm — para efeito de comparação, uma Ram 1500 TRX, a versão mais potente da picape americana, entrega 702 cv e 881 Nm. Ou seja, estamos falando de mais que o dobro da potência e o triplo do torque.
Mas aqui começa o exercício de ceticismo profissional. Esses números são combinados, o que significa que dificilmente você terá acesso a toda essa potência o tempo todo. Sistemas híbridos plug-in dependem do estado de carga da bateria, da temperatura ambiente, do modo de condução selecionado e de uma série de variáveis que a indústria adora esconder nas letras miúdas.
E tem mais: o consumo declarado de 71,9 km/l. Na ponta do lápis, isso significaria rodar de São Paulo ao Rio de Janeiro com menos de 6 litros de combustível. Bonito no papel, mas autonomia declarada não tem confiabilidade. Esses números são obtidos em ciclos de homologação chineses (CLTC ou NEDC), que são notoriamente mais generosos que os testes reais. Na prática, espere algo entre 30% e 50% a menos — o que ainda seria impressionante, mas bem longe do milagre anunciado.
Dimensões de paquiderme: maior que Hilux, Ranger e Amarok
Se os números de potência e consumo já chamam atenção, as dimensões da F700 PHEV não ficam atrás. Com 5,65 metros de comprimento, 2,06 m de largura e 1,92 m de altura, a caminhonete chinesa supera com folga as médias tradicionais do mercado brasileiro:
- Toyota Hilux: 5,33 m de comprimento
- Ford Ranger: 5,37 m de comprimento
- Volkswagen Amarok: 5,35 m de comprimento
- Ram 1500: 5,81 m de comprimento (ainda maior, mas a F700 se aproxima)
Entre-eixos de 3,4 metros garante espaço interno generoso e boa capacidade de carga na caçamba. O design segue a linha agressiva e angular que virou moda entre as picapes chinesas, com para-choque robusto, grade imponente e vincos marcados na carroceria. Nada de sutileza — a intenção é intimidar.
Mas aqui vai um alerta prático: tamanho é inimigo da cidade. Com quase 5,7 metros de comprimento e mais de 2 metros de largura, estacionar essa picape em shopping ou garagem residencial vai ser um desafio. E antes que alguém argumente que “picape não é para cidade”, vale lembrar que no Brasil a maioria das caminhonetes roda em ambiente urbano, servindo mais como símbolo de status do que como ferramenta de trabalho.
Recarga em 10 minutos: promessa ou propaganda?
A Jetour promete que a bateria da F700 PHEV pode ser recarregada em apenas 10 minutos em carregadores rápidos de corrente contínua. Se isso for verdade, seria um avanço significativo — a maioria dos híbridos plug-in leva de 2 a 4 horas para recarga completa em tomadas convencionais.
Mas vamos com calma. Recarga ultrarrápida exige infraestrutura específica, que praticamente não existe no Brasil. Além disso, carregar baterias em alta velocidade gera calor, degrada as células mais rapidamente e reduz a vida útil do conjunto. É o imutável princípio da física: não existe almoço grátis.
A capacidade da bateria não foi divulgada oficialmente, mas estimativas apontam para algo entre 30 e 40 kWh — suficiente para cerca de 100 km de autonomia elétrica pura, segundo a fabricante. Novamente, esses números são no ciclo chinês. Na prática, espere algo entre 60 e 80 km em condições reais, o que ainda é útil para o deslocamento diário urbano.
Tecnologia embarcada: muito além do básico
A Jetour não economizou em tecnologia. A F700 PHEV vem equipada com:
- Painel digital de 12,3 polegadas para instrumentos
- Central multimídia de 15,6 polegadas com conectividade 5G
- Assistentes de condução semiautônoma (nível 2+)
- Suspensão pneumática ajustável
- Sistema de câmeras 360 graus
- Controle de tração 4×4 com modos off-road
No papel, é um arsenal de recursos que faria inveja a muitas picapes premium. Mas — e sempre há um “mas” — qualidade, assistência e revenda são questões em aberto quando falamos de marcas chinesas recém-chegadas ao mercado. Décadas de rodagem na imprensa me ensinaram que tecnologia sem suporte vira dor de cabeça rapidamente.
Preço e chegada ao Brasil: o X da questão
A Jetour ainda não divulgou preços oficiais para a F700 PHEV, mas estimativas do mercado chinês apontam para valores entre 300 mil e 400 mil yuans — algo entre R$ 240 mil e R$ 320 mil em conversão direta. Claro que, chegando ao Brasil, esse valor seria multiplicado por impostos, frete e margem de lucro, provavelmente ultrapassando os R$ 500 mil.
Nessa faixa de preço, a F700 competiria diretamente com a Ram 1500, que parte de R$ 449 mil, e com versões topo de linha da Ranger Raptor (R$ 479 mil) e da Chevrolet Silverado (acima de R$ 500 mil). A diferença? Nenhuma dessas rivais oferece motorização híbrida ou números tão extravagantes de potência.
A Jetour já confirmou planos de expansão no Brasil, mas ainda não há data oficial para a chegada da F700 PHEV por aqui. A marca estreou no país em 2024 com SUVs como o Dashing e o X90 Plus, apostando em preços agressivos e equipamento generoso. A estratégia tem funcionado: as vendas crescem mês a mês, surfando na onda das marcas chinesas que invadiram o mercado brasileiro.
Concorrência: quem enfrenta a F700 PHEV?
No segmento de picapes grandes e potentes, a F700 PHEV teria como rivais diretos:
- Ram 1500: 5,7 litros V8, 400 cv, consumo de 6 km/l (cidade)
- Ford Ranger Raptor: 3,0 V6 biturbo, 397 cv, consumo de 7,5 km/l (cidade)
- Chevrolet Silverado: 6,2 litros V8, 420 cv, consumo de 5,5 km/l (cidade)
- Toyota Tundra (não oficial no Brasil): 3,5 V6 híbrido, 437 cv
Nenhuma delas oferece números próximos aos da Jetour em potência ou consumo. Mas todas têm algo que a chinesa ainda precisa provar: confiabilidade comprovada, rede de assistência consolidada e valor de revenda previsível.
Vale a pena acreditar nos números?
A Jetour F700 PHEV é, sem dúvida, um projeto ambicioso. Os números impressionam, a tecnologia parece avançada e o porte rivaliza com as grandes americanas. Mas décadas de experiência me ensinaram a desconfiar de promessas que parecem boas demais para ser verdade.
Potência combinada de 1.631 cv? Sim, mas disponível apenas em condições ideais e por períodos curtos. Consumo de 71,9 km/l? No ciclo de homologação chinês, que é tão realista quanto propaganda de shampoo. Recarga em 10 minutos? Ótimo, mas onde estão os carregadores ultrarrápidos no Brasil?
Não precisa mentir, né? A indústria automotiva vive de marketing, e os chineses estão aprendendo rápido a jogar esse jogo. Mas números no papel não substituem desempenho real, qualidade de construção e suporte pós-venda.
Perguntas frequentes sobre a Jetour F700 PHEV
Quando a Jetour F700 PHEV chega ao Brasil?
Ainda não há data oficial. A produção em série está prevista para 2026 na China, e a chegada ao Brasil dependeria de estratégia comercial da marca e regulamentações locais.
Qual o consumo real esperado da F700 PHEV?
O consumo declarado de 71,9 km/l é baseado em ciclos de homologação chineses. Na prática, espere algo entre 25 e 35 km/l em uso misto, dependendo do perfil de condução e do estado de carga da bateria.
A F700 PHEV é maior que a Ram 1500?
Não. A F700 tem 5,65 m de comprimento, enquanto a Ram 1500 chega a 5,81 m. Mas a diferença é pequena, e a Jetour supera com folga picapes médias como Hilux, Ranger e Amarok.
Quanto deve custar a Jetour F700 PHEV no Brasil?
Estimativas apontam para valores acima de R$ 500 mil, considerando impostos e margem de lucro. Seria uma concorrente direta da Ram 1500 e das versões topo de linha da Ranger e Silverado.
A tecnologia híbrida plug-in compensa em uma picape?
Depende do uso. Para quem roda principalmente na cidade e tem acesso a recarga diária, pode haver economia significativa. Para uso rural ou viagens longas, o benefício é menor, e o peso extra da bateria pode ser desvantajoso.
Conclusão: espetáculo de números ou revolução real?
A Jetour F700 PHEV é picape com 1.631 cv e porte de Ram 1500 que faz 71,9 km/l — pelo menos no papel. Na prática, será preciso esperar testes independentes, avaliações de longo prazo e, principalmente, ver como a marca se comporta em termos de assistência técnica e peças de reposição no Brasil.
É um tsunami de tecnologia e números impressionantes, mas nem tudo que brilha é ouro. A indústria chinesa está evoluindo rapidamente, mas ainda há um longo caminho entre protótipos espetaculares e produtos confiáveis para o dia a dia.
Racionalmente, nenhum argumento justifica 1.631 cv em uma picape de uso civil. Mas compra racional é de ônibus e caminhão — e a Jetour sabe disso. A F700 PHEV é mais sobre desejo, status e tecnologia de ponta do que sobre necessidade real. E, convenhamos, isso nunca impediu ninguém de comprar uma caminhonete gigante.
A questão é: você está disposto a ser early adopter de uma tecnologia ainda não comprovada, ou prefere esperar para ver se os chineses realmente entregam o que prometem? Eu, com décadas de rodagem, prefiro a segunda opção. Mas reconheço: é impossível não ficar curioso.







