A Land Rover encerra produção no Brasil e Chery negocia incentivos fiscais na fábrica de Itatiaia, no Rio de Janeiro, em um movimento que marca o fim de um ciclo para a fabricante britânica e abre espaço para a expansão chinesa no mercado automotivo nacional. A decisão da Jaguar Land Rover (JLR) de interromper a manufatura local após anos de operação reflete tanto a reestruturação global da marca quanto as dificuldades de manter produção em escala viável no Brasil. Enquanto isso, a Chery, já consolidada como uma das principais montadoras chinesas no país, enxerga na planta uma oportunidade estratégica para nacionalizar seus novos modelos premium Omoda e Jaecoo, desde que consiga condições fiscais competitivas.
Por que a Land Rover encerrou a produção no Brasil
A fábrica da Land Rover em Itatiaia começou a operar em 2016 com a promessa de nacionalizar modelos como Discovery Sport, Range Rover Evoque e depois o Discovery. A aposta inicial era clara: aproveitar incentivos fiscais do estado do Rio de Janeiro e reduzir o custo final dos veículos para o consumidor brasileiro, historicamente penalizado por impostos de importação que chegam a 35% sobre carros prontos.
Na prática, a operação nunca atingiu o volume necessário para se pagar. A produção local exige escala mínima de 10 mil a 15 mil unidades anuais para justificar os custos de ferramentaria, logística de autopeças e mão de obra especializada. A Land Rover, mesmo com três modelos na linha, raramente ultrapassou 5 mil carros por ano saindo de Itatiaia. O mercado brasileiro de SUVs premium é menor do que o planejamento inicial previa, porque a classe média alta que compra Discovery Sport ou Evoque também considera alemães como Audi Q3 e BMW X1, muitos deles importados com isenção parcial via acordos Mercosul.
Além disso, a reestruturação global da JLR sob o comando da Tata Motors priorizou investimentos em eletrificação e plataformas modulares que não cabem em plantas de baixo volume como a brasileira. A decisão de encerrar a produção local foi tomada em 2023 e executada ao longo de 2024, com os últimos carros saindo da linha em meados do ano. A partir de agora, todos os modelos Land Rover e Jaguar voltam a ser importados, o que significa preços mais altos e menor competitividade frente a rivais que mantêm produção nacional ou regional.
Chery negocia incentivos fiscais para nacionalizar Omoda e Jaecoo
Do outro lado da negociação está a Chery, que já opera uma fábrica em Jacareí (SP) desde 2014 e viu suas vendas explodirem nos últimos três anos. A marca chinesa saltou de 20 mil emplacamentos em 2020 para mais de 100 mil em 2023, puxada por modelos como Tiggo 5x, Tiggo 7 e Tiggo 8. Agora, a empresa quer dar o próximo passo: posicionar as submarcas Omoda e Jaecoo no segmento premium, competindo diretamente com Jeep Compass, Volkswagen Taos e os próprios SUVs da Land Rover.
A fábrica de Itatiaia entra nesse plano porque oferece capacidade instalada ociosa, infraestrutura logística próxima ao porto de Sepetiba e, principalmente, a possibilidade de renegociar incentivos fiscais com o governo fluminense. A Chery busca um pacote que inclua:
- Redução de ICMS para componentes nacionais e importados, nos moldes do que outras montadoras conseguiram em estados como Bahia e Goiás
- Financiamento subsidiado via agências de fomento estaduais para investimento em ferramentaria e adaptação da linha de produção
- Isenção parcial de IPTU industrial por prazo determinado, comum em acordos de atração de investimento automotivo
- Compromisso de contratação local, mantendo parte da mão de obra que trabalhava para a JLR e gerando novos empregos diretos e indiretos
Sem esses incentivos, a conta não fecha. A Chery já tem capacidade ociosa em Jacareí e poderia simplesmente ampliar a planta paulista, mas a negociação com o Rio de Janeiro oferece vantagens fiscais que reduzem o custo de nacionalização em até 15%, segundo estimativas do setor. Isso faz diferença quando o objetivo é vender um Omoda 5 ou Jaecoo 7 por R$ 150 mil a R$ 180 mil, faixa de preço em que cada R$ 5 mil de redução no custo final representa vantagem competitiva real.
O que muda para o consumidor brasileiro
Para quem já tem ou pensava em comprar um Land Rover, a mudança é direta: os preços sobem. Um Discovery Sport que custava R$ 280 mil produzido em Itatiaia agora chega importado da Inglaterra por volta de R$ 330 mil a R$ 350 mil, dependendo da versão. O Evoque, que já era caro, passa dos R$ 400 mil com facilidade. A rede de concessionárias permanece ativa, mas o volume de estoque diminui porque cada unidade importada carrega custo financeiro maior e demora mais para girar.
No lado da assistência técnica, a preocupação é com peças de reposição. Enquanto a produção era local, componentes específicos tinham fornecedores nacionais ou regionais, o que acelerava a entrega e barateava o custo de manutenção fora da garantia. Com a importação total, peças mais complexas podem levar 60 a 90 dias para chegar, e o preço sobe porque cada item paga imposto de importação e frete internacional. Quem tem um Discovery Sport 2020 ou 2021 fabricado no Brasil precisa ficar atento ao estoque de peças da rede autorizada nos próximos anos.
Do lado Chery, a nacionalização de Omoda e Jaecoo traz o benefício oposto: preços mais competitivos e disponibilidade maior. O Omoda 5, que hoje é importado da China e custa em torno de R$ 160 mil, pode cair para a faixa de R$ 140 mil a R$ 145 mil se produzido em Itatiaia com índice de nacionalização acima de 60%. Isso coloca o SUV chinês no radar de quem hoje olha Jeep Compass ou Volkswagen Taos, ambos na casa dos R$ 150 mil a R$ 170 mil.
A diferença entre importar e produzir localmente pode significar até R$ 20 mil no preço final de um SUV médio, considerando IPI, PIS/Cofins e ICMS sobre importação versus produção nacional com incentivos fiscais.
JLR pode terceirizar produção futura no Brasil
Embora a Land Rover tenha encerrado a produção própria, a JLR não descarta completamente o Brasil. A estratégia agora passa por terceirização, modelo já adotado por outras marcas premium que não justificam fábrica própria mas querem manter presença local. A BMW, por exemplo, terceiriza a produção de alguns modelos X1 e X3 na planta da Magna Steyr na Áustria para mercados menores. No Brasil, a JLR poderia negociar com a própria Chery ou com outra montadora que tenha capacidade ociosa para produzir lotes menores de Discovery Sport ou Evoque sob contrato.
Esse modelo reduz risco e investimento fixo, mas exige parceiro confiável com padrão de qualidade compatível. A Chery, se assumir Itatiaia, teria interesse em manter a linha ocupada e diluir custos fixos. A JLR pagaria pela produção e manteria controle sobre especificações técnicas, acabamento e homologações. Para o consumidor, o resultado seria um Land Rover com preço intermediário entre o importado e o antigo nacional, provavelmente R$ 20 mil a R$ 30 mil abaixo da importação direta.
Nada disso está confirmado, mas as conversas existem. A decisão depende do volume mínimo que a JLR conseguir projetar para o Brasil nos próximos três a cinco anos. Se o mercado de SUVs premium voltar a crescer acima de 30 mil unidades anuais, a terceirização faz sentido. Abaixo disso, a importação direta continua sendo o caminho mais seguro financeiramente.
Impacto no mercado automotivo e na cadeia de fornecedores
A saída da Land Rover e a possível entrada da Chery em Itatiaia refletem uma tendência mais ampla no setor automotivo brasileiro: marcas europeias recuam em produção local de baixo volume enquanto chinesas avançam em escala e nacionalização. Nos últimos cinco anos, Ford fechou fábricas, Mercedes-Benz reduziu produção nacional e até a Volkswagen concentrou investimentos em modelos de maior giro como T-Cross e Nivus, deixando SUVs maiores para importação.
Enquanto isso, Chery, GWM e BYD investem pesado. A GWM inaugurou fábrica em Iracemápolis (SP) em 2023, a BYD negocia planta em Camaçari (BA) e a Chery quer ampliar presença com duas fábricas operando. O diferencial chinês está na escala planejada desde o início: onde uma marca europeia projeta 8 mil carros por ano, uma chinesa projeta 30 mil, o que muda completamente a viabilidade econômica da operação.
Para a cadeia de fornecedores brasileira, a troca de fabricante em Itatiaia significa renegociação de contratos. Empresas que forneciam estampados, plásticos injetados e componentes elétricos para a JLR precisam se adaptar às especificações da Chery ou buscar outros clientes. A boa notícia é que a Chery tem histórico de nacionalização progressiva: começa importando 70% dos componentes e, ao longo de três a quatro anos, eleva o índice nacional para 50% a 60%, o que gera demanda para fornecedores locais que conseguem se adaptar aos padrões técnicos chineses.
Perguntas frequentes sobre o fim da produção Land Rover e a negociação Chery
A Land Rover vai parar de vender carros no Brasil?
Não. A marca continua operando no Brasil com importação direta de todos os modelos. O que muda é que os carros não são mais fabricados em Itatiaia, o que eleva os preços finais em média 15% a 20% por causa dos impostos de importação.
Quem tem um Land Rover fabricado no Brasil vai ter problema com peças?
A rede autorizada mantém estoque de peças de reposição, mas componentes mais específicos podem demorar mais para chegar porque agora dependem de importação. Recomenda-se fazer revisões na rede oficial e verificar disponibilidade de peças antes de comprar um modelo usado fabricado em Itatiaia.
Quando a Chery começa a produzir Omoda e Jaecoo em Itatiaia?
A negociação ainda está em andamento. Se o acordo de incentivos fiscais for fechado em 2024, a produção pode começar no segundo semestre de 2025, com os primeiros carros nacionais chegando às concessionárias no início de 2026.
Os modelos Chery produzidos em Itatiaia vão ser mais baratos que os importados?
Sim. A nacionalização com índice acima de 60% reduz impostos e permite preço final entre 10% e 15% menor que a versão importada. Um Omoda 5 que custa R$ 160 mil importado pode cair para R$ 140 mil produzido localmente.
A fábrica de Itatiaia vai gerar empregos com a Chery?
A expectativa é que a Chery mantenha parte dos 400 funcionários que trabalhavam para a JLR e contrate mais 200 a 300 ao longo dos dois primeiros anos de operação, dependendo do volume de produção planejado. O número final depende do acordo de incentivos e do compromisso de contratação local exigido pelo governo estadual.
Vale a pena esperar o Omoda nacional ou comprar o importado agora?
Depende da urgência. Se você pode esperar até meados de 2025, o modelo nacional deve custar menos e ter melhor disponibilidade de peças. Se precisa do carro agora, o importado já está nas concessionárias, mas paga o preço cheio com impostos de importação. Para quem negocia desconto, o importado pode ter margem maior porque a Chery quer girar estoque antes da produção local começar.








