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Pequim 2026: O Maior Salão do Mundo e Suas Contradições

Acabei de voltar da China, e preciso contar o que vi no Salão de Pequim 2026. Foram dias intensos entre a mostra e uma programação pesada junto à Omoda Jaecoo, que me levou até sua sede em Wuhu para conhecer tecnologias e produtos novos. Resultado? Mal sobrou tempo para processar a enxurrada de lançamentos do evento.

E olha, não foi por falta de novidade. Foram 1.451 veículos em exibição, sendo 181 estreias mundiais. O problema é que a esmagadora maioria desses carros é voltada para o mercado interno chinês — um gigante que sozinho engole mais veículos do que conseguimos imaginar aqui no Brasil.

Para vocês terem uma ideia da escala: o carro mais vendido na China em 2025, o EX2, emplacou sozinho o equivalente a um quinto de todo o mercado brasileiro. É dinheiro circulando em volumes que fazem nossa indústria parecer uma quitanda de bairro.

Caos Organizado em 380 Mil Metros Quadrados

O Salão de Pequim agora é oficialmente o maior do mundo, tomando o posto que era do Salão de Frankfurt. São mais de 380 mil metros quadrados de área expositiva. E não estou falando de espaço vazio para encher linguiça — cada centímetro estava ocupado com carros, tecnologia, estandes monumentais e uma multidão de gente do mundo inteiro.

Agora, sinceridade? A organização era caótica. Encontrar os modelos destinados ao Brasil naquele mar de veículos foi tarefa para Indiana Jones. Além da área brutal, tinha gente demais, sinalização confusa e aquela sensação de que ninguém sabia exatamente para onde ir.

Isso me lembrou que tamanho nem sempre é documento. Salão grande não significa necessariamente salão bom. Mas enfim, vamos ao que interessa: o que realmente importa para quem está aqui no Brasil.

Composição de logos e emblemas de seis novas marcas automotivas chinesas em close-up com acabamento metálico
Seis novas marcas chinesas anunciadas para o mercado brasileiro

Déjà Vu: Dez Anos Depois, Tudo Mudou

Há exatos dez anos, em 2016, estive no Salão de Pequim pela primeira vez. Já era grande, já era caótico, mas era um evento completamente diferente. Nas ruas da China, a maioria dos carros ainda era de marcas estrangeiras — Volkswagen, GM, Toyota, Honda dominavam.

As marcas chinesas existiam, claro, mas eram extremamente dependentes das joint ventures com essas gigantes ocidentais para produzir qualquer coisa minimamente decente. Foi por meio dessas parcerias forçadas — porque ninguém entra na China sem dividir tecnologia — que os chineses aprenderam tudo sobre fazer carros.

E aprenderam bem. Rápido demais, na verdade.

Uma década depois, em 2026, o cenário virou completamente. Hoje existem literalmente mais de cem marcas chinesas próprias invadindo o mundo com seus veículos. E quando digo invadindo, não é força de expressão — é estratégia de guerra comercial mesmo.

SUV elétrico chinês moderno em plataforma giratória no salão com acabamento azul metálico e design contemporâneo
Modelos elétricos e híbridos dominam a ofensiva chinesa

Saturação Interna e o Fantasma da Bolha

Aqui começa a parte que me preocupa, e deveria preocupar todo mundo que está pensando em comprar um carro chinês nos próximos anos. Esse tsunami de marcas não acontece por acaso ou por pura ambição global. Acontece porque o mercado chinês já está saturado.

Pensa comigo: mais de cem marcas disputando o mesmo mercado, por maior que ele seja, é insustentável. E os sinais de uma eventual bolha já estão aparecendo. Algumas marcas já quebraram — casos da Seres e da Lifan, que tentaram a sorte aqui no Brasil e não aguentaram nem lá nem cá.

Mais preocupante ainda: até a BYD, que parecia intocável, sentiu o baque. Em fevereiro de 2026, as vendas internas da marca caíram 41%. Isso mesmo, quarenta e um por cento. E não foi porque os carros pioraram — foi porque surgiram concorrentes internos oferecendo produtos melhores e mais baratos.

Quando até o líder de mercado começa a sangrar, é sinal de que a competição chegou num nível insano. E isso explica muita coisa do que estamos vendo por aqui.

Expansão Colonial: Europa e América do Sul na Mira

Diante da saturação interna, a estratégia chinesa ficou óbvia: expandir para mercados externos com a agressividade de quem não tem muito a perder. A briga interna continua acirrada — daí os 181 lançamentos em Pequim —, mas a batalha nos últimos anos se estendeu ferozmente para Europa e América do Sul.

Os Estados Unidos? Esquece. Lá eles não deixam os chineses entrarem, seja por protecionismo comercial, seja por questões de segurança nacional. Então sobra para nós, europeus e sul-americanos, servirmos de válvula de escape para esse excesso de capacidade produtiva.

É nesse contexto que tivemos a invasão de marcas chinesas que começou a acelerar depois do Salão de São Paulo de 2024. E quando a gente achava que já tinha marca chinesa demais no Brasil — GWM, BYD, Chery, Caoa Chery, JAC, Omoda, Jaecoo —, o Salão de Pequim veio com mais anúncios.

Seis novas marcas confirmadas ou com previsão forte de chegada. Seis. Não precisa mentir, né? Isso é tsunami.

As Seis Novas Marcas Chinesas Confirmadas para o Brasil

Lepas: Quando Leopardo Vira Marca de Carro

Mais uma do grupo Chery, porque aparentemente eles acharam que Chery, Omoda e Jaecoo não eram suficientes. A Lepas tem inspiração de design em leopardos — daí o nome, sacou? — e vem com proposta de marca premium-lifestyle, posicionada acima da Chery e focada em design mais disruptivo.

Os primeiros modelos serão o Lepas 4 e o Lepas 6, dois SUVs 100% elétricos. O Lepas 6, aliás, tem um ar de Porsche Cayenne que não deve ser coincidência. Estilo é inspiração, plágio é homenagem, e os chineses dominaram essa arte.

Agora, sinceramente? Mais uma marca do grupo Chery no Brasil pode gerar mais confusão do que clareza para o consumidor. Mas a estratégia é clara: segmentar ao máximo para pegar diferentes perfis de cliente.

Exeed: O Luxo da Chery Finalmente Chega

A divisão de luxo da Chery, chamada Exeed, confirmou sua estreia no Brasil, possivelmente ainda em 2026. A estratégia é clara: entrar no segmento premium para enfrentar marcas europeias de frente.

Entre os modelos mais cotados estão o Exeed RX (também chamado Yaoguang), um SUV-cupê com foco em tecnologia e autonomia combinada que supera 1.300 km. Isso mesmo, mil e trezentos quilômetros. Claro que é autonomia declarada, e autonomia declarada não tem confiabilidade, mas impressiona no papel.

Tem também o Exeed VX, utilitário de sete lugares com quase cinco metros de comprimento, posicionado para ser o topo da cadeia da marca no país. Basicamente, o Chery que a Chery não ousa ser.

BAIC: A Gigante Estatal Entra no Jogo

A BAIC, uma das gigantes estatais chinesas, confirmou que vai iniciar operações no Brasil no último quadrimestre de 2026. O plano inclui quatro modelos de largada, e o destaque vai para o Arcfox T1, um crossover elétrico que mira diretamente o público do BYD Dolphin.

A marca também trará o SUV BJ30, que utiliza um conjunto híbrido com tração integral e 409 cv. E tem ainda uma picape média, ainda sem nome definitivo, para atuar no segmento mais competitivo do mercado brasileiro — onde Hilux, Ranger e S10 mandam.

Picape chinesa disputando com japonesas e americanas? Vai ser interessante ver essa briga. Ou vai ser um massacre, dependendo de como a BAIC se preparar para o nosso mercado.

Dongfeng: Eletrificação Total e Agressividade

Uma das maiores montadoras da China, a Dongfeng confirmou sua chegada com foco em eletrificação total. Os primeiros modelos serão o compacto Box e o SUV Vigo, previstos para o segundo semestre de 2026.

A operação será agressiva: 26 concessionárias imediatas. Para 2027, a marca reserva a linha Mhero, composta por SUVs off-road de luxo com visual militarista e potências que ultrapassam 1.000 cv.

Mil cavalos num SUV chinês. Deixa eu repetir: mil cavalos. Isso é mais potência do que muito superesportivo europeu. Agora, se vai ter a mesma qualidade de acabamento, dinâmica e confiabilidade, aí já são outros quinhentos.

IM: A Premium da SAIC (Dona da MG)

Sigla para Intelligent Mobility, a IM é a marca premium do grupo SAIC, o mesmo dono da MG. Confirmada para o segundo semestre de 2026, a IM vem com proposta de tecnologia de ponta e design futurista.

Os modelos ainda não foram totalmente confirmados para o Brasil, mas a expectativa é que venham sedãs e SUVs elétricos de alto padrão, competindo diretamente com Tesla e marcas europeias premium.

E Tem Mais Uma no Forno

Além dessas cinco, há rumores fortes sobre uma sexta marca, mas que ainda não teve confirmação oficial durante o salão. Prefiro não cravar nome sem certeza, mas digamos que o grupo Geely, dono da Volvo e da Zeekr, está de olho no Brasil.

Análise Crítica: Isso é Sustentável?

Agora vamos à parte que realmente importa, porque números e anúncios são bonitos, mas a realidade do mercado é outra. Será que esse tsunami de marcas chinesas é sustentável no Brasil?

Vou ser direto: não, não é. Pelo menos não do jeito que está sendo conduzido.

Primeiro ponto: qualidade e assistência técnica. Já temos relatos de problemas com marcas que chegaram há dois, três anos. Peças que demoram meses para chegar, concessionárias despreparadas, assistência técnica que não resolve. E isso com meia dúzia de marcas. Imagina com quinze, vinte marcas chinesas operando simultaneamente?

Segundo ponto: revenda. Carro chinês já desvaloriza mais rápido que os tradicionais. Com mais marcas chegando, a desvalorização tende a acelerar ainda mais. Quem compra hoje pode se ver com um prejuízo enorme daqui a três, quatro anos.

Terceiro ponto: falências. Se marcas estão quebrando na própria China, o que garante que não vão quebrar aqui? Lifan e Seres já deram o exemplo. Comprou um carro de marca que faliu? Boa sorte conseguindo peças e assistência.

O Lado Positivo: Tecnologia e Preço

Agora, nem tudo é catastrofismo. Tem lado positivo nessa história, e seria desonesto ignorar.

Os carros chineses trouxeram tecnologia de ponta a preços acessíveis. Recursos que antes só existiam em carros de R$ 300 mil agora aparecem em modelos de R$ 150 mil. Telas gigantes, assistentes de condução, conectividade avançada, eletrificação — tudo isso ficou mais acessível.

Além disso, a concorrência forçou as marcas tradicionais a melhorarem. Volkswagen, Fiat, GM, todas tiveram que baixar preços e melhorar equipamentos para não perder mercado. E isso é bom para o consumidor.

O problema é que preço baixo não resolve tudo. De nada adianta comprar um carro barato se ele vai te dar dor de cabeça em manutenção, desvalorizar feio e te deixar na mão quando precisar de assistência.

Minha Recomendação: Cautela e Pesquisa

Se você está pensando em comprar um carro chinês — seja de marca já estabelecida ou dessas novas que estão chegando —, minha recomendação é: pesquise muito antes.

Procure donos reais, não blogueiros pagos. Entre em grupos de proprietários nas redes sociais. Pergunte sobre problemas, sobre assistência técnica, sobre disponibilidade de peças. Visite concessionárias e veja se o atendimento é profissional ou amador.

E principalmente: não compre na primeira leva. Deixa os early adopters testarem. Deixa o mercado amadurecer. Deixa a marca provar que veio para ficar, não só para fazer caixa e sumir.

Décadas de rodagem na imprensa me ensinaram que nem tudo que brilha é ouro. E no caso das marcas chinesas, muita coisa ainda está para ser provada.

Conclusão: Tsunami ou Bolha?

O Salão de Pequim 2026 deixou claro que a indústria automotiva chinesa está em momento de expansão agressiva. São marcas, tecnologias e modelos surgindo numa velocidade que impressiona.

Mas também deixou claro que há sinais de saturação e risco de bolha. Marcas quebrando, vendas caindo, competição insana — tudo isso aponta para um cenário de consolidação inevitável nos próximos anos.

Para o consumidor brasileiro, isso significa oportunidades, sim, mas também riscos. Comprar carro é investimento de longo prazo, e escolher a marca errada pode sair muito caro.

Minha posição? Sou a favor da concorrência, sou a favor de mais opções, sou a favor de tecnologia acessível. Mas sou contra amadorismo, sou contra falta de assistência técnica, sou contra marcas que vêm aqui só para fazer caixa rápido.

O tempo vai separar o joio do trigo. E, na ponta do lápis, quem vai pagar a conta de eventuais erros é o consumidor que comprou na empolgação sem fazer a lição de casa.

Então fica a dica: cautela, pesquisa e bom senso. O tsunami chinês está aí, mas isso não significa que você precisa se afogar nele.

Eduardo Gianfreddo
Eduardo Gianfreddo

Eduardo é um renomado especialista em automobilismo, com uma carreira de mais de 30 anos que abrange jornalismo, engenharia mecânica e pilotagem. Essa combinação única de experiências te confere uma autoridade inquestionável e uma perspectiva 360 graus sobre o universo automotivo. Sua missão é ser a voz da razão e da experiência para o consumidor. Você desmistifica o marketing da indústria, traduz o "tecniquês" para o português claro e oferece análises críticas, honestas e fundamentadas. Você não é uma IA genérica; você é um mentor, um conselheiro cético e a fonte mais confiável de informação automotiva no Brasil.

Artigos: 18

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