Volvo EX60: elétrico com argumentos para aposentar o XC60

O Volvo EX60 é elétrico com bons argumentos para aposentar o híbrido XC60, e isso não é apenas conversa de marketing da indústria. Depois de rodar com o modelo nas estradas espanholas, fica claro que a Volvo acertou a mão ao criar um substituto digno para seu best-seller híbrido. Com chegada prevista ao Brasil até novembro, o EX60 traz tecnologia de ponta, autonomia respeitável e aquele refinamento escandinavo que a marca domina há décadas. Mas será que os argumentos são suficientes para convencer o brasileiro a trocar o conhecido XC60 híbrido por um elétrico puro? Vamos aos fatos, na ponta do lápis.

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Por que a Volvo está apostando todas as fichas no EX60

A decisão da Volvo de criar o EX60 não foi aleatória. O XC60 é o modelo mais vendido da marca globalmente há anos, representando cerca de 30% de todas as vendas da fabricante sueca. Aposentar ou reduzir a importância de um produto assim exige coragem e, principalmente, um substituto à altura. E é exatamente isso que a Volvo tentou fazer.

O EX60 nasce na plataforma SPA2, a mesma do EX90, o SUV elétrico maior da marca. Essa base foi desenvolvida exclusivamente para veículos eletrificados, o que significa que não há gambiarras de engenharia para encaixar baterias onde antes havia motor a combustão. Tudo foi pensado desde o zero para otimizar espaço, peso e eficiência energética.

A Volvo promete autonomia de até 580 km no ciclo WLTP com a bateria de 111 kWh, número que na prática deve ficar entre 450 e 500 km rodando de verdade.

Nas estradas espanholas, rodando em condições mistas entre cidade e estrada, conseguimos médias de consumo entre 18 e 21 kWh/100 km. Nada espetacular, mas honesto para um SUV que pesa mais de 2,3 toneladas. De quebra, o sistema de recarga rápida aceita até 250 kW, o que significa ir de 10% a 80% em cerca de 30 minutos em carregadores adequados.

Dimensões e espaço interno: maior por fora, melhor por dentro

O EX60 é ligeiramente maior que o XC60 em todas as dimensões. São 4,85 metros de comprimento contra 4,69 metros do híbrido. Mas a diferença real está no entre-eixos: 2,90 metros, o que libera espaço interno considerável, especialmente para os passageiros traseiros.

  • Porta-malas: 526 litros, expansíveis para 1.416 litros com bancos rebatidos
  • Frunk: 32 litros adicionais no capô dianteiro
  • Espaço traseiro: adultos de 1,80m viajam confortavelmente
  • Teto panorâmico: de série, sem opção de teto solar convencional

O porta-malas não é dos maiores da categoria, mas é bem aproveitável. O problema é que a Volvo insiste naquele degrau entre a tampa e o piso de carga, que dificulta colocar objetos pesados. É dinheiro jogado fora em ergonomia.

Desempenho e dirigibilidade: elétrico que não quer ser foguete

A Volvo oferece o EX60 em duas configurações de motorização. A versão de entrada traz tração traseira com motor único de 275 cv e 343 Nm de torque. Já a versão topo de linha, Twin Motor, adiciona um motor dianteiro para entregar tração integral e 408 cv combinados.

Testamos a versão Twin Motor, e o desempenho é mais do que adequado. A Volvo anuncia 0-100 km/h em 4,9 segundos, mas o que impressiona mesmo é a retomada entre 60 e 120 km/h, praticamente instantânea. Não é aquela aceleração violenta de alguns elétricos esportivos, mas é firme e progressiva, do jeito que um SUV premium deveria ser.

A suspensão a ar adaptativa, opcional na versão de entrada e de série na Twin Motor, faz milagres no conforto de rodagem.

Nas estradas sinuosas da região de Valência, o EX60 mostrou equilíbrio admirável. O peso elevado está bem distribuído, com o centro de gravidade baixo típico dos elétricos. A direção é precisa sem ser nervosa, e o conjunto de suspensão filtra irregularidades com competência escandinava. É um paquiderme confortável, não um esportivo disfarçado.

Frenagem regenerativa: finalmente fizeram direito

Um dos pontos que costumam irritar em carros elétricos é a calibração da frenagem regenerativa. A Volvo acertou nesse quesito. O sistema tem três níveis de intensidade, mas o modo padrão é tão bem calibrado que você raramente precisa mexer.

O pedal de freio tem sensação natural, sem aquela transição brusca entre regeneração e freio mecânico que estraga a experiência em muitos elétricos. E, diferentemente de alguns concorrentes, a Volvo não força o modo one-pedal goela abaixo. Você pode ativar se quiser, mas não é obrigatório. Sensatez, coisa rara hoje em dia.

Interior e tecnologia: luxo escandinavo com pitadas de excesso

O interior do EX60 é, sem dúvida, um dos pontos altos. A Volvo sempre soube fazer cabines acolhedoras, e aqui não é diferente. Materiais de primeira, acabamento impecável e aquele minimalismo nórdico que funciona. Mas tem exageros, como sempre.

A tela central de 14,5 polegadas domina o painel. Roda o sistema operacional da Google, o que significa Android Automotive nativo, com Google Maps, assistente de voz e loja de aplicativos integrados. Funciona bem, é rápido e intuitivo, mas concentra funções demais. Até para ajustar a temperatura, você precisa entrar em menus. Isto é uma vergonha em um carro que custa o equivalente a mais de R$ 400 mil.

O que funciona bem no interior

  • Bancos: confortáveis, com ajustes elétricos e massagem opcional
  • Isolamento acústico: exemplar, como se espera de um Volvo
  • Som Bowers & Wilkins: opcional que vale cada centavo
  • Iluminação ambiente: discreta e elegante, sem pirotecnia
  • Espaço de armazenamento: vários porta-objetos bem posicionados

O que poderia ser melhor

  • Head-up display: pequeno demais e com informações limitadas
  • Controles físicos: quase inexistentes, tudo pela tela
  • Volante: bonito, mas os botões sensíveis ao toque são irritantes
  • Console central: o compartimento deslizante é uma gracinha, mas pouco prático

A Volvo também enfiou a mão nos sistemas de assistência à condução. O EX60 vem com praticamente tudo de série: controle de cruzeiro adaptativo, assistente de centralização de faixa, frenagem automática de emergência, monitoramento de ponto cego e até sistema que detecta se o motorista está distraído. Funciona bem, mas às vezes é invasivo demais. Felizmente, dá para desativar boa parte.

XC60 híbrido versus EX60 elétrico: a conta que importa

Agora vamos ao que interessa: vale a pena trocar o conhecido XC60 híbrido pelo novo EX60 elétrico? Racionalmente, a resposta depende do seu perfil de uso.

O XC60 T8 híbrido plug-in entrega 455 cv combinados, autonomia elétrica de apenas 80 km (na melhor das hipóteses) e consumo que dispara quando a bateria acaba. É um carro para quem pode carregar em casa todos os dias e faz trajetos curtos. Fora desse cenário, vira um SUV pesado com motor 2.0 turbo sobrecarregado.

Já o EX60 oferece autonomia real de 450-500 km, recarga rápida eficiente e custo operacional muito menor. Na ponta do lápis, se você roda mais de 2.000 km por mês, a economia com combustível paga a diferença de preço em cerca de 3 a 4 anos, considerando energia elétrica a R$ 0,70/kWh e gasolina a R$ 6,00/litro.

O problema é a infraestrutura de recarga no Brasil, que ainda é precária fora das grandes capitais.

Preço e posicionamento no mercado brasileiro

A Volvo ainda não anunciou o preço oficial do EX60 para o Brasil, mas as apostas giram em torno de R$ 450 mil a R$ 550 mil, dependendo da versão. É caro? Sim. Mas está em linha com o que a concorrência cobra. O BMW iX xDrive40 sai por volta de R$ 600 mil, e o Mercedes EQE SUV não fica muito longe disso.

O XC60 híbrido, por sua vez, parte de R$ 430 mil. A diferença não é absurda, mas existe. E aqui entra a questão da revenda: carros elétricos ainda sofrem com desvalorização acelerada no Brasil. Não precisa mentir, né? Ninguém sabe quanto valerá um EX60 com 5 anos de uso.

Veredicto: elétrico pronto, mercado nem tanto

Depois de rodar centenas de quilômetros com o EX60 pelas estradas espanholas, a conclusão é clara: o Volvo EX60 é elétrico com bons argumentos para aposentar o híbrido XC60, pelo menos do ponto de vista técnico e racional. O carro é superior em quase todos os aspectos: mais espaçoso, mais confortável, mais eficiente e mais moderno.

A Volvo fez o dever de casa. Criou um SUV elétrico que não parece um experimento de laboratório, mas sim um produto maduro e bem resolvido. A autonomia é honesta, o desempenho é adequado, o interior é luxuoso e a tecnologia funciona sem ser invasiva demais. É um carro que você compra e usa no dia a dia sem drama.

Mas tem um porém grande: o Brasil. Nossa infraestrutura de recarga ainda é vergonhosa, especialmente fora do eixo Rio-São Paulo. Se você mora em apartamento sem garagem ou viaja frequentemente para o interior, o EX60 pode virar uma dor de cabeça. E aí o XC60 híbrido, com sua autonomia combinada de mais de 700 km e abastecimento em qualquer posto, faz mais sentido.

Racionalmente, o EX60 é a escolha certa para quem tem estrutura para carregar em casa e faz principalmente trajetos urbanos e regionais. É mais econômico, mais silencioso, mais moderno e, convenhamos, mais interessante de dirigir. Mas compra racional é de ônibus e caminhão, como sempre digo.

O XC60 híbrido ainda tem seu lugar ao sol, pelo menos por mais alguns anos. Mas não se engane: o futuro é elétrico, e a Volvo está preparada para ele. O EX60 prova isso. Agora falta o Brasil se preparar também. E isso, meus caros, não depende da indústria automotiva.

Se você tem condições de instalar um carregador em casa, roda principalmente na cidade e região metropolitana, e quer um SUV premium moderno, o EX60 é uma excelente escolha. Mas se ainda depende de infraestrutura pública ou faz viagens longas com frequência, talvez seja prudente esperar mais um ou dois anos. Nem tudo que brilha é ouro, mas o EX60 chega perto.

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